Atualização, coordenada tecnicamente pelo Mater Natura em parceria com o IMA, avaliou mais de 4,4 mil espécies e atualiza, após 15 anos, um dos principais instrumentos para orientar a conservação da biodiversidade no estado
Santa Catarina tem uma nova Lista Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção. O Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) publicou a Resolução nº 315/2026, que oficializa a atualização da lista estadual e substitui integralmente a Resolução CONSEMA nº 02/2011, vigente há 15 anos.
A publicação conclui um amplo processo de avaliação do risco de extinção da fauna catarinense, coordenado tecnicamente pelo Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, com apoio e supervisão do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). Entre junho de 2024 e março de 2025, milhares de espécies foram avaliadas a partir de critérios científicos e com a participação de especialistas de diferentes instituições.
A nova lista oferece uma base científica atualizada para orientar políticas públicas, estratégias de conservação, pesquisas, processos de licenciamento ambiental, monitoramento da biodiversidade e outras ações voltadas à proteção da fauna e de seus habitats em Santa Catarina.

A atualização foi desenvolvida no âmbito do projeto Estratégia Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção – GEF Pró-Espécies, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e financiado pelo Global Environment Facility (GEF).
A execução técnica do processo de atualização da lista catarinense foi realizada pelo Mater Natura, com financiamento do WWF-Brasil e apoio e supervisão do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), no âmbito do Plano de Ação Territorial (PAT) Planalto Sul.
Para o presidente do Mater Natura, Paulo A. Pizzi, a publicação da nova lista representa a concretização de um trabalho que une produção e sistematização de conhecimento científico, articulação entre especialistas e aplicação da ciência às políticas públicas de conservação. “Conhecer quais espécies estão ameaçadas, onde ocorrem e quais pressões enfrentam é um passo essencial para definir prioridades e agir antes que as perdas se tornem irreversíveis”.
Mais de 4,4 mil espécies avaliadas
O processo avaliou 4.436 espécies, pertencentes a sete filos, 32 classes, 219 ordens e 745 famílias. A avaliação abrangeu diferentes grupos da fauna e adotou os critérios e categorias da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), referência internacional para a avaliação do risco de extinção.
Como resultado do trabalho, 298 espécies foram identificadas em alguma categoria de ameaça: 143 como Vulneráveis (VU), 92 Em Perigo (EN) e 58 Criticamente em Perigo (CR). Outras cinco foram classificadas como Criticamente em Perigo e Possivelmente Extintas (CR/PE), além do registro de espécie considerada extinta na natureza.
Em relação à lista estadual anterior, de 2011, foram avaliadas 2.536 espécies a mais, ampliando significativamente o conhecimento considerado na análise da situação da fauna catarinense.
A comparação direta entre o número de espécies ameaçadas nas duas listas, porém, precisa ser feita com cautela. O aumento observado não representa necessariamente apenas uma piora no estado de conservação da fauna: também reflete a ampliação do universo de espécies avaliadas, o avanço do conhecimento científico, novos dados sobre distribuição e ecologia e o aprimoramento das metodologias utilizadas.


Ciência construída de forma colaborativa
Uma das características centrais da atualização foi a construção participativa do processo. O Mater Natura coordenou a geração e compilação de informações sobre ecologia e distribuição geográfica das espécies e a realização de consultas e oficinas envolvendo pesquisadores e especialistas de universidades, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, zoológicos e museus.
Ao todo, foram realizadas 26 oficinas remotas entre setembro de 2024 e fevereiro de 2025, organizadas por grupos taxonômicos. O trabalho buscou reunir o maior volume possível de conhecimento científico disponível e submetê-lo à análise de especialistas.
A metodologia adotada também possibilita que a avaliação da fauna seja entendida como um processo contínuo. A própria Resolução nº 315/2026 estabelece que a lista deverá ser revisada em um intervalo máximo de dez anos, além de permitir atualizações pontuais diante de novas evidências científicas.
Da avaliação científica à política pública
A oficialização da lista é uma etapa fundamental porque transforma o conhecimento produzido durante o processo de avaliação em um instrumento para a gestão ambiental.
Ao reconhecer oficialmente quais espécies enfrentam maior risco de extinção em Santa Catarina, o estado passa a contar com informações atualizadas para definir prioridades de conservação, orientar ações de recuperação de espécies e habitats e subsidiar decisões que possam afetar áreas de ocorrência da fauna ameaçada.
A lista também ganha relevância no licenciamento ambiental. O registro de espécies oficialmente ameaçadas deve ser considerado nos estudos e avaliações de impactos ambientais, contribuindo para a definição de medidas de prevenção, mitigação, monitoramento e conservação adequadas a cada contexto.
Além disso, a atualização amplia a representação de grupos historicamente menos contemplados nas avaliações, incluindo invertebrados, anfíbios, peixes e fauna marinha, oferecendo um retrato mais abrangente da biodiversidade catarinense.
Entre as espécies que integram a nova lista estão animais bastante conhecidos, como a onça-pintada (Panthera onca), a anta (Tapirus terrestris), o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) e o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), além de espécies de distribuição extremamente restrita, como o lagartinho-de-Imbituba (Tropidurus imbituba), encontrado apenas em uma pequena área do litoral catarinense.
Esses diferentes casos mostram por que listas regionais são importantes. O risco enfrentado por uma espécie pode variar significativamente ao longo de sua distribuição, e uma avaliação estadual permite identificar situações críticas que nem sempre aparecem da mesma maneira em análises realizadas em escala nacional ou global.


