Levantamento realizado pelo projeto Estudos da Restauração confirmou 854 espécies e teve papel central na consolidação do conhecimento sobre a flora da unidade de conservação

O Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange (PNSHL), no litoral do Paraná, acaba de ganhar um importante instrumento para o conhecimento e a conservação de sua biodiversidade. Uma lista descritiva da flora da Unidade de Conservação foi publicada no Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil, plataforma do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), reunindo 1.295 espécies de plantas registradas na área.
Uma parcela expressiva desse conhecimento vem de pesquisas recentes realizadas pelo projeto Estudos da Restauração: pesquisa, estruturação e planejamento, executado pelo Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais e financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná. Das 1.295 espécies que compõem a flora do Parque, 854 – o equivalente a 66% – tiveram seus registros confirmados a partir das amostras coletadas pela equipe do projeto.
“O levantamento florístico para o catálogo foi realizado pelo projeto e a solicitação formal para inclusão da lista no catálogo foi realizada pelo ICMBio, que é o gestor do Parque”, detalha o coordenador do projeto Estudos da Restauração, Daniel Miller. O trabalho de campo foi coordenado pelo botânico Marcelo Leandro Brotto, responsável pelos estudos de flora do projeto por meio do Museu Botânico Municipal de Curitiba (MBM), e envolveu uma ampla rede de pesquisadores e instituições parceiras.
“A sensação de estar gerando conhecimento para a humanidade é bem gratificante. Quando eu olho para a Serra da Prata sempre me pergunto: Afinal, quantas plantas existem aí? – Então, agora eu sinto que estamos no caminho de responder essa questão. E isso me deixa bem realizado como profissional!”, comenta Marcelo.

Mais de mil amostras botânicas coletadas
Ao longo de aproximadamente um ano e meio, foram realizadas expedições em diferentes áreas do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange, resultando na coleta de 1.123 amostras botânicas. O material foi depositado no Herbário Escola de Florestas Curitiba (EFC), com duplicatas encaminhadas aos herbários de quatro instituições de ensino e pesquisa: Herbário da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (HCF), Herbário do Museu Botânico Municipal de Curitiba (MBM), Herbário Dimitri Sucre Benjamin — Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB) e Herbário da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNOP).
Além das novas coletas, o trabalho incluiu a revisão de exemplares históricos conservados em coleções botânicas, especialmente nos herbários EFC e MBM. Dessa forma, o catálogo conecta as pesquisas atuais a mais de um século de investigação científica na Serra da Prata.

O registro mais antigo incorporado ao levantamento é de 1911: um exemplar da orquídea Acianthera pubescens, coletado pelo botânico sueco Per Karl Hjalmar Dusén. Assim, a lista publicada em 2026 sintetiza 115 anos de registros botânicos realizados por diferentes pesquisadores na região.
Mais do que uma relação de espécies, esse conjunto de informações constitui uma importante base científica para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade protegida pelo Parque e subsidiar pesquisas, monitoramento, planejamento e estratégias de conservação.
Uma flora marcada pela diversidade
Entre as angiospermas, a família com maior riqueza registrada no PNSHL é Orchidaceae, com 127 táxons, seguida por Myrtaceae (75), Fabaceae (49), Melastomataceae (46), Rubiaceae (45), Asteraceae (43) e Lauraceae (36).
Entre as pteridófitas, destacam-se Polypodiaceae, com 33 táxons, Dryopteridaceae, com 27, e Hymenophyllaceae, com 26. Já entre as briófitas, as famílias mais representativas são Lejeuneaceae, com 16 táxons, Dicranaceae, com dez, e Pilotrichaceae, com nove.

A diversidade registrada acompanha a grande variação ambiental existente dentro do Parque. Com aproximadamente 24,3 mil hectares, o PNSHL protege parte da Serra da Prata e abrange áreas dos municípios paranaenses de Guaratuba, Matinhos, Morretes e Paranaguá.
Em pouco mais de 36 quilômetros de extensão no sentido norte-sul, a paisagem vai de áreas próximas ao nível do mar até quase 1.500 metros de altitude, na Torre da Prata. Essa variação está associada a diferentes formações do domínio da Mata Atlântica, incluindo Floresta Ombrófila Densa Submontana, Montana e Altomontana, além de campos de altitude e vegetação rupestre.

Pesquisa que amplia o conhecimento sobre a biodiversidade
O levantamento florístico também já havia proporcionado descobertas relevantes durante as atividades do Estudos da Restauração. Em maio de 2025, por exemplo, pesquisadores encontraram no Parque a orquídea Bulbophyllum campos-portoi, até então nunca registrada no Paraná e na Região Sul do Brasil. O exemplar foi localizado nas proximidades do Salto do Tigre, em Matinhos, ampliando o conhecimento sobre a distribuição geográfica da espécie.

Resultados como esse mostram a importância de inventários de campo sistemáticos e de coleções científicas para revelar uma biodiversidade que, mesmo em áreas protegidas, ainda não é totalmente conhecida.
A publicação no Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil consolida agora esse esforço em uma base pública de conhecimento. Ao reunir registros históricos, novas coletas e a revisão taxonômica realizada por especialistas, o trabalho oferece uma referência para pesquisadores e para a própria gestão da unidade de conservação.
O resultado também evidencia a importância da cooperação entre instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e órgãos gestores. O levantamento foi desenvolvido a partir da atuação conjunta do Mater Natura, Herbário EFC, Museu Botânico Municipal de Curitiba, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ICMBio, além da contribuição de pesquisadores de diferentes instituições.

O projeto “Estudos da Restauração: pesquisa, estruturação e planejamento” é executado pelo Mater Natura desde novembro de 2024 e é financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, com recursos do Termo de Acordo Judicial celebrado entre o Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado do Paraná e Petrobras, sob interveniência do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Acesse o catálogo aqui: https://catalogo-ucs-brasil.jbrj.gov.br/areas/PNSHL

Referência da lista florística (como citar os pesquisadores envolvidos): Brotto ML, Blum CT, Canestraro BK, Dall’Agnol RT, Dantas FS, Engels ME, Frazão A, Lozano ED, Marinero FEC, Oliveira F, Peralta DF, Ribeiro GSB, Schwartsburd P, Souza I, Temponi LG, Vieira FCS, Völtz RR. 2026. Lista de espécies de plantas vasculares do Parque Nacional Saint-Hilaire/Lange. In: Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.







