Projeto apoiou a comunidade na estruturação de uma iniciativa de coleta e comercialização de sementes nativas, conectando conservação da biodiversidade, restauração ecológica e geração de renda

Manter a floresta em pé e ao mesmo tempo transformá-la em uma aliada para a geração de renda, valorizando a biodiversidade e o território: foi com essa proposta que o projeto Sementes e Mudas do Quilombo para a Grande Reserva realizou um ciclo de atividades no Quilombo Rio Verde, em Guaraqueçaba (PR), deixando como principal legado a comunidade mais preparada para ocupar um espaço estratégico na cadeia da restauração ecológica. O projeto foi realizado de 2024 a 2026, com financiamento da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza – FGBPN.
Desenvolvido com participação ativa da comunidade, o projeto investiu em capacitação técnica, estruturação do negócio comunitário, articulação com potenciais compradores e inserção em redes ligadas à restauração. Como resultados, 20 integrantes da comunidade foram capacitados, mais de mil quilos de frutos e sementes foram coletados e foi construído, de forma participativa, um plano de negócios para orientar a coleta, o beneficiamento e a comercialização de sementes nativas.
“Mais do que os produtos gerados durante o projeto, fica como legado uma nova perspectiva sobre o território e sobre as possibilidades de geração de renda associadas ao uso sustentável da floresta, fortalecendo a autonomia e o protagonismo da comunidade”, destaca a coordenadora do projeto, Mônica Gabira.

Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, o Quilombo Rio Verde possui um território de mais de 5,2 mil hectares inserido em uma das regiões de maior relevância para a conservação da Mata Atlântica. Desde sua concepção, o projeto buscou responder a dois desafios conectados: a necessidade crescente de sementes e outros insumos nativos para projetos de restauração e limitada participação de comunidades tradicionais nessa cadeia produtiva.
Da capacitação às primeiras vendas
A formação da comunidade envolveu os conhecimentos necessários para as diferentes etapas da cadeia das sementes, como identificação e acompanhamento de árvores matrizes, técnicas de coleta, beneficiamento e armazenamento, germinação e gestão do negócio. A adesão às capacitações cresceu ao longo do projeto, com maior participação principalmente nas atividades diretamente relacionadas à coleta e ao beneficiamento das sementes.
Esse conhecimento passou a ser aplicado na prática. Além das coletas realizadas durante as capacitações, a comunidade começou a fornecer sementes para comercialização, com uma inserção efetiva no mercado da restauração ecológica.

Um diferencial importante está na biodiversidade existente no território. Entre as sementes disponíveis estão espécies raras e ameaçadas, relevantes para projetos que buscam também recuperar a diversidade dos ecossistemas, além de ampliar a cobertura vegetal.
As coletas foram orientadas por boas práticas, com acompanhamento da fenologia das espécies, respeito aos períodos de produção e limite de retirada de até 70% da produção de cada indivíduo, de maneira a manter parte das sementes disponíveis para a regeneração natural e para as relações ecológicas da floresta.
Um negócio construído com a comunidade
Um resultado central foi a elaboração participativa de um plano de negócios de impacto socioambiental positivo. Em oficinas realizadas ao longo do projeto, os participantes contribuíram para decisões sobre organização das equipes, divisão de funções, precificação, logística de coleta e beneficiamento e outros aspectos necessários à gestão da atividade. Após sua elaboração, o plano foi acompanhado por mais de três meses e ajustado de acordo com as demandas encontradas na prática.
A estruturação do negócio também envolveu a identificação de potenciais clientes e o apoio às primeiras vendas, fazendo com que a formação técnica se convertesse em uma experiência de geração de renda e de participação direta na restauração. “Com isso, o Quilombo Rio Verde passou a ocupar um espaço mais ativo na cadeia produtiva da restauração, fornecendo sementes nativas e valorizando a biodiversidade presente em seu território”, detalha Mônica.

O projeto previa inicialmente também a produção de 50 mil mudas. Durante sua execução, porém, foi identificado que a comunidade ainda não possuía estrutura organizacional e disponibilidade de mão de obra suficientes para assumir essa produção na escala planejada.
A estratégia foi então adaptada para a produção de plântulas. A comunidade recebeu capacitação específica em 2025 e, em 2026, foi implantada uma pequena infraestrutura para viabilizar essa atividade. Embora a produção não tenha começado durante a vigência do projeto, ficaram instaladas as condições físicas e os conhecimentos técnicos necessários para que possa ser desenvolvida depois.

Compondo a teia da restauração
Ao longo do projeto, foram estabelecidas ou fortalecidas relações com instituições e redes como Instituto Água e Terra (IAT), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Sociedade Chauá, SPVS, Grande Reserva Mata Atlântica, Rede de Sementes do Ribeira, Redário e Rede Nativas Brasil. A estratégia buscou colocar a própria comunidade à frente dessas relações, ampliando sua autonomia para estabelecer parcerias, acessar conhecimentos, mercados e novas oportunidades.
Esse protagonismo ganhou visibilidade nacional em julho de 2026, durante a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica – SOBRE 2026, realizada na Universidade de Brasília (UnB). Marta Pontes Gonçalves do Carmo, liderança do Quilombo Rio Verde e do negócio comunitário de sementes, participou da atividade “Vozes da Restauração – Coletivos Biomáticos”, representando a Mata Atlântica e compartilhando a experiência desenvolvida no território. O projeto também foi apresentado em um trabalho técnico sobre o fortalecimento da cadeia comunitária de sementes e mudas nativas.



Em agosto de 2026, no Seminário #VivaAConservação, voltado ao fortalecimento de áreas protegidas no litoral do Paraná, Marta também apresentou a experiência em um painel que debateu caminhos para a restauração ecológica.

A participação em espaços como esses amplia uma dimensão importante do projeto: além de produzir sementes, o Quilombo Rio Verde passa a participar das discussões sobre como e com quem a restauração ecológica é feita. E a floresta conservada passa a ter também valor econômico para quem vive no território.
Próximos passos
A disponibilidade de sementes nativas em quantidade, qualidade e diversidade é um dos elementos fundamentais para ampliar a restauração ecológica. Nesse processo, comunidades que conhecem e manejam seus territórios podem ocupar uma posição estratégica na cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que novas oportunidades econômicas ajudam a valorizar a manutenção dos remanescentes naturais.
O território e sua biodiversidade passaram a ser percebidos também como base para uma atividade econômica construída localmente, aproximando geração de renda, uso sustentável dos recursos naturais e conservação.

Com esse foco, a equipe técnica do projeto continuará oferecendo apoio voluntário à comunidade para dar sequência às atividades, enquanto busca parceiros e recursos para uma nova etapa. Uma proposta de continuidade já foi elaborada e aguarda o apoio de instituições financeiras, tendo como horizonte consolidar a atividade em longo prazo.
Entre os próximos passos estão a formalização e o fortalecimento do negócio comunitário de sementes, a ampliação da comunicação e divulgação da iniciativa, a continuidade da assistência técnica e o aprofundamento de aspectos relacionados à identidade e à cultura do Quilombo Rio Verde. “A intenção é consolidar a atividade de sementes como uma iniciativa sustentável e duradoura, capaz de gerar benefícios para as famílias da comunidade e ampliar sua participação na cadeia da restauração ecológica”, afirma Mônica.
A compra de sementes junto ao Quilombo Rio Verde pode ser realizada pelo e-mail [email protected] ou pelo WhatsApp +55 41 9704-8916. Mais informações no perfil do Quilombo no Instagram: https://www.instagram.com/quilomborioverde
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