O dilema da araucária: sobreviveu a pré-história, mas sobreviverá aos humanos?

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No Dia Nacional da Araucária, conheça a história da árvore que viu os dinossauros surgirem e desaparecerem, hoje criticamente ameaçada — e os nossos projetos que estão restaurando suas florestas no Sul do Brasil.

A araucária existe há mais de 200 milhões de anos na Terra – Foto: Zig Koch

Há mais de 200 milhões de anos, antes mesmo de os dinossauros dominarem o planeta, já existiam araucárias (Araucaria angustifolia). A linhagem dessas árvores atravessou eras geológicas inteiras, viu répteis gigantes surgirem, reinarem e desaparecerem e chegou até nós. Fósseis do gênero Araucaria – de outras espécies, não da nossa Araucaria angustifolia – já foram encontrados em diversos continentes, inclusive na Antártica. Poucos seres vivos no Brasil carregam um currículo tão antigo quanto o do pinheiro-do-paraná.

Símbolo do Sul do Brasil, a araucária é uma gimnosperma, grupo de plantas que se reproduz por sementes nuas, sem flores nem frutos. É uma árvore de personalidade. Tem sexos separados: existem exemplares macho e fêmea. Só as fêmeas produzem a pinha, estrutura onde amadurecem os pinhões; os machos liberam o pólen, que viaja pelo vento até as árvores fêmeas — uma polinização que dispensa abelhas e outros insetos, incomum entre as árvores brasileiras.

Sua forma é inconfundível. Quando jovem, a araucária lembra um cone. Ao amadurecer, perde os galhos mais baixos e assume a silhueta de taça que virou cartão-postal da paisagem sulista. São árvores que pensam em séculos, não em anos: podem ultrapassar os 40 metros de altura e viver centenas de anos. 

Araucária centenária na cidade Cruz Machado (PR), derrubada por causas naturais em 2023 – Foto: Prefeitura de Cruz Machado

No centro da vida da araucária está o pinhão. Ao contrário do que muita gente pensa, ele não é um fruto, e sim uma semente, altamente nutritiva e uma fonte crucial de energia para a fauna durante o inverno. É aí que entra a gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), uma das grandes aliadas da espécie: a ave se alimenta dos pinhões e também os enterra para consumir depois. Parte dessas sementes acaba esquecida — e germina, dando origem a novas árvores. Não é a única dispersora (roedores e outros animais também ajudam), mas a parceria entre a gralha-azul e a araucária se tornou uma das imagens mais conhecidas da Floresta com Araucária.

A relação da araucária com o Sul do Brasil é tão profunda que aparece até nos nomes dos lugares. “Curitiba” vem do guarani kurit’y: algo como “muitos pinheirais”, o lugar onde havia grande quantidade de pinheiros. A capital paranaense carrega a árvore no próprio nome.

Mas essa história de resistência tem um capítulo sombrio e recente. A intensa exploração madeireira ao longo do século 20 derrubou a maior parte dessas florestas. Estima-se que restem apenas entre 1% e 3% das matas de araucária originais, e a espécie hoje é classificada como criticamente ameaçada de extinção. O que nos traz uma questão: a árvore que sobreviveu à extinção dos dinossauros sobreviverá a nós?

Acreditamos que esse final ainda pode ser reescrito

No sudeste do Paraná, o projeto Elos da Mata Atlântica: Corredores para a Reconexão Ecológica prevê recuperar mais de 200 hectares com foco na reconexão e melhoria de fragmentos da Floresta com Araucária, em uma região estratégica da Mata Atlântica, envolvendo comunidades de assentamentos da reforma agrária. O projeto faz parte do Programa Floresta Viva, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Philip Morris Brasil.

Área do Projeto de Assentamento José Gomes (PR), um dos territórios que terá restauração ecológica pelo projeto Elos da Mata Atlântica – Foto: Arquivo/Mater Natura

E em Santa Catarina, o projeto Paisagens Conversas: Restauração Ecológica na Mata Atlântica atua na restauração de áreas com espécies raras ou ameaçadas, entre elas a própria araucária, em quase 290 hectares nos municípios de Doutor Pedrinho, Santa Terezinha e Vidal Ramos. O projeto é financiado pelo Ibama por meio do Acordo de Cooperação Técnica nº 36/2023 e supervisionado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina (MPF/SC), pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Justiça Federal de Santa Catarina, nos termos da ação nº 5001458-53.2017.4.04.7200/SC.

Equipe técnica do projeto Paisagens Conversas durante visita à Reserva Biológica Sassafrás, em Doutor Pedrinho (SC) – Foto: Arquivo/Mater Natura

Restaurar uma floresta de araucárias é um gesto que mira tão longe quanto a própria história da árvore. Plantar hoje é apostar em algo que talvez só se revele por completo daqui a décadas, ou séculos. No Dia Nacional da Araucária, vale lembrar: o futuro dessa sobrevivente de 200 milhões de anos depende, agora, das escolhas que fazemos.

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