Resgate do etnoconhecimento da região de Castro-PR
Participação do Mater Natura no projeto: Instituição proponente e executora
Financiadores: Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMA)/ Instituto Ambiental do Paraná (IAP)
Parceiros: Prefeitura Municipal de Castro; EMATER–PR; Universidade Federal do Paraná – UFPR
Equipe executora:
Coordenação: Adriana Marques Canha
Técnicos: Kátia R. Casula Fornazzari e Simone Marques Canha
Colaboradores: Teresa Urban, Cirino Corrêa Júnior, Juarez Cordeiro, Osmar dos Santos Ribas, Luiz Antonio Biasi, Josilda de Jesus Alves da Silva, Elisângela Canha, Silmara Debétil, Eva Ferraz, Leandro Borgonha, Karina Marques, Silvia Napoli, Ronaldo Tavares Consoni e Saulo Kotzel Teixeira
Agradecimentos: César de Oliveira Haag, Marcelo Mendes do Amaral, Noeme Moreira de Oliveira, Roberto Xavier de Lima, Francisco Leocádio Canha, Jozana Carneiro, Silmara de Jesus Carneiro, Rosi de Jesus Barbosa, Joseane Alves da Silva, Elis Regina Kubis, Estela Buturi Carneiro, Érico Kauano, Daniella L. do Nascimento, Tiago T. Fabri, Sheilla Carvalho, Letícia Ostrovski, e Cinthia Madureira
Descrição:
Consideram-se como comunidades tradicionais aquelas que, habitando em locais menos perturbados, não são diretamente afetadas pela industrialização dos recursos. Essas comunidades dispõem por sua própria tradição, de um enorme acervo de conhecimentos ecológicos, codificados em seus ritos, costumes sociais e práticas de subsistência. Entretanto, atualmente estas vêm sofrendo pressões econômicas e culturais de uma sociedade já globalizada, causando problemas devastadores nestas culturas tradicionais (HELENE & MARCONDES, 1996; AMOROZO & GÉLY, 1988 apud FORNAZZARI, 2001).
O resgate do conhecimento cultural, através do estudo etnobiológico dessas populações, e sua devolução à comunidade, garante a perpetuação do saber-fazer local. Além disso, estes estudos identificam expressões culturais locais, caracterizando, num sentido amplo, seus representantes. Esta forma de trabalho também amplia a discussão e o questionamento sobre a percepção ambiental das comunidades, bem como formas de educação ambiental a serem desenvolvidas. Tem como linha de ação a relação entre a conservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida, visto que os habitantes locais poderão melhorar a maneira de utilização de seus recursos naturais, uma vez que os produtos de origem vegetal podem auxiliar na saúde pública e na geração de renda (LIMA, 1996).
O Município de Castro, situado no primeiro planalto paranaense, região centro-leste do estado, possui uma população de 63.546 habitantes (IBGE, 2000), onde a população rural é representada por cerca de 32% deste total. Este município apresenta distintos distritos rurais, dentre os quais, o Socavão (lat. 24º40’ a 24º50’ S; long. 49º 80’ a 40º 90’ W e altitude de 900 m) é um dos principais núcleos rurais, representando 722,3 km² de área distrital, com densidade populacional de 12,6 hab/km².
De forma a suprir a falta de informações sobre os costumes e a realidade das comunidades da região de Castro, especificamente no distrito do Socavão, foram coligidos dados socioeconômicos e etnobiológicos em sete comunidades (Serra do Apon, São João do Faxinal, Lagoa dos Alves, Pinhal dos Alves, Funil, Bairro dos Luís e Ribeirão dos Pinheiros), como principal enfoque às plantas medicinais utilizadas na terapia popular.
Este projeto teve como metas:
1. Resgatar, sistematizar e devolver para as sete comunidades estudadas, no período de dois anos, o conhecimento etnobiológico e cultural levantado no local.
2. Produzir material didático de apoio para agentes de saúde, escolas particulares e da rede pública de ensino municipal, estadual, centros de educação infantil, e comunidade em geral. Este material disseminará o conhecimento levantado destas comunidades e ressaltará a importância do saber-local.
3. Desenvolver junto as Escolas Municipais da Serra do Apon e do Ribeirão dos Pinheiros, um concurso de histórias e lendas da região.
4. Realizar 2 (duas) oficinas de orientação do uso de plantas medicinais e manipulação de remédios caseiros para os agentes de saúde, professores e interessados da comunidade.
Resultados e produtos obtidos:
Foram realizadas quatro reuniões iniciais junto às comunidades para apresentação do projeto e obtenção de informações por meio do diagnóstico participativo. Com base no senso comum de seus habitantes, as 3 atividades interativas aplicadas: “Mapa Falado”, “Introspecção” e “Percepção” serviram para coligir as informações necessárias na representação das comunidades. Na reunião com a comunidade da Serra do Apon houve a participação de 31 moradores locais, já na reunião conjunta com as comunidades Lagoa dos Alves e São João do Faxinal, 58 pessoas compareceram. Na comunidade do Funil com a do Pinhal dos Alves, 14 moradores participaram, e na reunião do Ribeirão dos Pinheiros e Bairro dos Luís 21 pessoas estavam presentes.
Considerando todas as sete comunidades, 83 pessoas foram indicadas pela população como detentoras do conhecimento fitoterápico ou possuidoras de habilidades no processo ou fabrico de peças artesanais. O levantamento etnobiológico contou com 274 etnoespécies de plantas distribuídas nas categorias de uso medicinal, incluindo o veterinário, místico, alimento, artesanal e ornamental.
Deste total, 216 foram identificadas em 76 famílias e as outras 58 ainda não identificadas. O uso composto de plantas, unidas ou não a alopáticos foi bastante citado, totalizando em 77 espécies. As comunidades apresentaram 10 espécies de animais dos quais fazem uso, principalmente da banha, graxa ou sebo destes animais. Das 42 citações de uso a maioria é indicada para medicina humana, associados a chás de plantas.
O projeto em parceria com a Prefeitura Municipal de Castro promoveu no dia 12 de setembro 2003 uma grande festa na Escola Municipal Serra do Apon com a participação de 123 crianças, dentre estas, alunos também da Escola Municipal do Ribeirão dos Pinheiros. Com jogos e brincadeiras, teatro e apresentações dos artistas locais, este momento propiciou a confraternização entre as escolas rurais e valorizando a cultura num estímulo à preservação da natureza local. Ao final, o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais premiou as escolas participantes e suas melhores histórias, resgatadas pelos alunos, que caracterizam as comunidades locais e simbolizam a região no Concurso Cata Lendas.
Em agosto de 2004, o lançamento do livro “Ô De Casa – O Saber Popular nas Comunidades Rurais” fez parte das comemorações do 21º aniversário de fundação (07 de agosto de 1983) desta ONG. Esta publicação possui especial relevância tanto para a equipe técnica responsável por sua elaboração quanto para o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, propositor do projeto que viabilizou a coleta de informações constantes nesta obra.
O financiamento do projeto Resgate do etnoconhecimento da região rural de Castro – cujo presente livro era um dos produtos previstos – originou-se do convênio entre nossa ONG e o governo do Estado do Paraná. Integrante de um conjunto de mais de 40 projetos conveniados com Prefeituras e ONGs paranaenses (Edital FEMA nº 01), em 05 de junho de 2002, a busca e, ainda hoje, inexplicável paralisação unilateral dos recursos por parte do Estado, prejudicou a execução e a conclusão de todos os projetos componentes do Edital. O Mater Natura recebeu apoio de três das quatro parcelas trimestrais previstas no convênio, permitindo o levantamento das informações em campo.
Contudo, todo o trabalho de compilação, ordenamento e sistematização dos dados coligidos foram realizados de forma voluntária pelas técnicas do projeto, bem como o projeto gráfico, executado sem nenhum ônus, por Saulo Kotzel Teixeira. Outras despesas, como fotolitos, foram assumidas integralmente pelo Mater Natura.
A ausência desta última parcela prejudicou uma devolução mais efetiva destes conhecimentos à população local, porém o esforço conjunto entre o Mater Natura e a Prefeitura Municipal de Castro viabilizaram a difusão das informações coligidas por meio da distribuição do livro “Ô de Casa – o saber popular de comunidades rurais” a todas as esferas do município. Dia 3 de setembro, nas comemorações dos 300 anos da cidade, houve um pré-lançamento na Casa da Praça para a comunidade em geral. Dia 16 de setembro, 174 instituições de ensino receberam 273 exemplares, num encontro promovido pela Secretaria de Educação, Cultura, da Criança e do Adolescente com os supervisores e professores municipais e estaduais. Neste momento foram planejadas ações de inserção do conteúdo do livro e formas semelhantes de resgate no currículo escolar. A Secretaria da Saúde responsabilizou-se pela distribuição do livro aos 98 agentes de saúde, disponibilizando esta equipe e instalações para oficina de orientação do uso de plantas medicinais e manipulação de remédios caseiros tendo o livro como material de apoio. A Secretaria da Agricultura e Abastecimento conciliou o momento estratégico de planejamento rural com as associações e abriu espaço para apresentação do livro e discussão sobre a importância da valorização do saber-local. Todas às 29 associações rurais presentes receberam um exemplar com um convite impresso para o lançamento do livro junto à comunidade no distrito do Socavão. O mesmo ocorreu em plenária na Câmara Municipal dos vereadores, estendendo-se a todos os integrantes do poder executivo. No dia 17 de setembro de 2004, o objetivo do projeto foi alcançado com o lançamento do livro junto com as comunidades. Com a intenção de prestigiar e legitimar a co-autoria da comunidade no livro, cada participante recebeu dois exemplares a fim de garantir-lhes a apropriação deste bem, e possibilitar que este possa ser presenteado a alguém pelo próprio autor.
Resultados esperados pelo projeto:
– Os resultados obtidos junto à população estudada poderão contribuir como parâmetros para a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento no que tange as necessidades e aptidões para atividades agrícolas a serem trabalhadas futuramente;
– Fornecerão informações à Secretaria de Saúde quanto às formas de tratamento mais comuns utilizadas pelas comunidades em função do tipo de sintoma apresentado, o que favorecerá sobremaneira na execução da medicina preventiva;
– E ainda, a Secretaria Municipal de Educação, Cultura, da Criança e do Adolescente poderá introduzir os conhecimentos resgatados nas comunidades no currículo escolar. Tendo como premissa a educação para sustentabilidade, os conteúdos resgatados e trabalhados servirão como instrumentos para maior compreensão e aplicabilidade da educação ambiental;
– Os resultados do projeto também contribuirão para ampliar a base de dados/conhecimentos e fornecer diretrizes de conservação ao programa da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – SEMA, intitulado Rede da Biodiversidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMOROZO, M.C.M. & GÉLY, A. Uso de plantas medicinais por caboclos do Baixo Amazonas. Barcarena, PA, Brasil. Bol. Mus. Para Emilio Goeldi, Ser. Bot. 4 (1), 1988.
HELENE, M.E.M. & MARCONDES, B. Evolução e Biodiversidade: o que nós temos com isso? Ed. Scipione. SP.1996.
FORNAZZARI, K. R.C. Subsídios à geração de proposta de desenvolvimento para a região de Guaratuba: estudo etnobotânico. Monografia, Depto. Botânica, Setor de Ciências Biológicas, UFPR. Curitiba. 2001
LIMA, R. X. Estudos etnobotânicos em comunidades continentais da Área de Proteção ambiental de Guaraqueçaba, Paraná – Brasil. Dissertação (Mestrado), Engenharia Florestal, Setor de Ciências Agrárias UFPR. Curitiba.1996.













