Ecologia da Curucaca e a influência da agricultura convencional sobre a fauna dos Campos Gerais do Paraná

Financiador: Fundação Grupo Boticário
Início: 2002
Término: 2003
Financiador: Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

 

Ecologia da Curucaca – Theristicus caudatus – (Aves: Threskiornithidae) e a influência da agricultura convencional sobre a fauna dos Campos Gerais do Paraná

 

Participação do Mater Natura no Projeto: Instituição proponente e executora

Financiador(es): Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

Parceiros: Marumby Montanhismo; Centro de Diagnóstico Marcos Enrietti; Instituto Ambiental do Paraná – IAP

Equipe Executora:
Responsável Técnico: Alexandre Lorenzetto (Mater Natura).
Técnicos Responsáveis: Bianca Reinert (Mater Natura); Lígia Maria Salvo; Mauro Pichorim (UFPR)
Colaboradores: Adilson Brito, Alan Mocochisnki, Arthur Bispo, Carolina Muller, Francisco Putinni, Galiana Lindoso; Imke Nabben, Marcos Bornschein, Josiane Forbeci, Olívia Isfer e Ramoci Leuchtemberger.

 

Descrição:

A curucaca – Theristicus caudatus – é uma ave típica de paisagens abertas de grande parte da América do Sul (Sick 1997). Ocorre em zonas tropicais desde a Guiana, Venezuela e Colômbia passando ao sul por virtualmente todo o Brasil, Paraguai, leste da Bolívia e norte da Argentina e Uruguai.

Apesar de sua ampla distribuição e de ser uma espécie comum, poucos são os estudos a respeito de sua ecologia e biologia básica. Uma revisão geral e resumida sobre habitat, alimentação, reprodução e movimentos encontra-se em Matheu e del Hoyo (1992) a qual refere-se principalmente a estudos realizados na Argentina e Venezuela. No Brasil, os estudos ainda são mais escassos. No estado do Paraná, o único estudo sobre a espécie foi realizado por Scherer Neto (1982) na região dos campos gerais onde são relatados alguns aspectos de reprodução.

Através dos estudos já realizados sabe-se que a espécie utiliza como sítios de alimentação campos naturais e áreas de cultivo (Sick 1997, Belton 1994 e Scherer Neto 1982). É encontrada em culturas de intensa utilização de agrotóxicos como arrozais e plantações de soja (Belton 1994 e obs. pess.). Nestes locais alimenta-se de artrópodos (insetos, aranhas, centopéias, etc), anfíbios, répteis e eventualmente pequenos mamíferos (Matheu e del Hoyo 1992).

A contaminação por agrotóxicos no mundo começou a ser detectada a partir do intensivo uso de pesticidas iniciado na década de 1940. Sabe-se que os pesticidas têm efeitos primários, quando atuam contaminando diretamente a espécie levando muitos indivíduos a morte imediata, e efeitos secundários, quando quebram a cadeia alimentar impossibilitando a manutenção das populações de aves de uma região (Moore 1985). Os mesmos têm contribuído diretamente para a diminuição de populações de muitas espécies de aves, inclusive colocando algumas em risco de extinção (BirdLife International 2000). As consequências da contaminação por pesticidas em espécies silvestres já são conhecidas há muito tempo, inclusive alguns autores consideram agentes químicos como um novo e importante fator ecológico (Moore 1985).

Na família Threskiornithidae já se conhece um exemplo drástico de contaminação por pesticidas. A espécie Geronticus eremita, do norte da África, teve parte de sua população reduzida em 70% entre 1956 e 1959 devido a contaminação por agentes químicos lançados contra gafanhotos (Matheu e del Hoyo 1992). O efeito deste envenenamento foi tão profundo e duradouro que as aves sobreviventes não geraram filhotes até 1972 e a população que era de 530 casais em 1953, caiu para 23 em 1973. Hoje esta espécie possui o status de criticamente ameaçada no mundo (BirdLife International 2000).
Embora a curucaca utilize como sítio de alimentação áreas de agricultura, nenhum estudo enfocou até o presente os níveis de agrotóxico na espécie bem como os efeitos desta possível contaminação.

Este projeto estudou os impactos dos pesticidas na região, sendo a curucaca a espécie alvo para este tipo de investigação. Isto porque ela é facilmente encontrada em grande número, alimenta-se diretamente nas áreas de cultivo, nidifica em locais facilmente encontrados e possui grande porte, possibilitando a retirada de amostras sanguíneas suficientes para as análises. Sendo assim, estas vantagens que existem para realizar este estudo na curucaca possibilitou o levantamento de dados inéditos que forneceram subsídios para avaliar e discutir os níveis atuais de contaminação em toda a fauna regional, além de descrever a biologia reprodutiva de T. caudatus e descrever aspectos da dinâmica populacional, morfometria, alimentação e comportamento. Em segundo plano, os resultados do projeto contribuíram para a elaboração de propostas de medidas de controle dos impactos que forem detectados.

Para tanto, foram analisadas populações de Theristicus caudatus em regiões de alta e baixa utilização de agrotóxicos para fins de comparação dos níveis de contaminação e dos parâmetros biológicos associados. A população do Parque Estadual de Vila Velha (P.E.V.V.) e arredores no município de Ponta Grossa-PR, foi considerada como de área com alta contaminação. Cabe ressaltar que dentro do P.E.V.V. não ocorre a utilização de agrotóxicos, mas as aves que nele residem utilizam como sítios de alimentação as fazendas do entorno e por isso estão sujeitas da mesma forma à contaminação. Foram consideradas como áreas de baixa contaminação algumas fazendas no município de Palmas (PR) – locais com presença de um grande número de curucacas -, devido à esta região ser utilizada basicamente para o pastoreio de gado, e portanto, sem o emprego maciço de agrotóxicos.

Por meio de análises sanguíneas para comparar a contaminação por organoclorados e organofosforados entre estas populações e comparando parâmetros biológicos influenciados por contaminação entre as áreas de baixa e intensa agricultura convencional (sucesso reprodutivo, problemas congênitos em ovos e filhotes, diferenças na espessura da casca dos ovos e taxas de sobrevivência), foram obtidos subsídios para elaborar propostas com medidas de controle dos impactos detectados pelo projeto.

Bibliografia citada

Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul, distribuição e biologia. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, Brasil.

BirdLife International 2000. Threatened birds of the world. Barcelona and Cambridge, UK: Lynx Edicions and BirdLife International.

Matheu, E. e J. del Hoyo 1992. Family Threskiornithidae. Pp. 472 – 506 in: del Hoyo, J., Elliott, A. e Sargatal, J. eds 1992. Handbook of the birds of the world. Vol 1. Ostrich to Ducks. Lynx Edicions, Barcelona.

Moore, N. W. 1985. Toxic chemicals. Pp. 604 – 606 in Campbell, B., & E. Lack (eds.). A dictionary of birds. Poyser, Calton, UK.

Scherer-Neto, P. 1982. Aspectos bionômicos e desenvolvimento de Theristicus caudatus (Boddaert 1783). Dusenia 13 (4): 145- 149.

Sick, H. 1997. Ornitologia brasileira. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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