|
Fauna ameaçada no Paraná: uma síntese
Sandra Bos Mikich
Renato Silveira
Bérnils
Paulo Aparecido
Pizzi
O conjunto das informações contidas nesta obra é indiscutivelmente
importante para a conservação no Estado do Paraná,
não somente em função da grande quantidade de dados
fornecidos sobre diferentes grupos faunísticos, como também
por sua sistematização em um único documento. Apresentamos
aqui uma análise da situação da fauna no Estado com
o objetivo de sintetizar as informações reunidas e organizadas
pelos autores nos capítulos precedentes.
Status das
espécies da fauna
no Paraná
O status das espécies de todos os grupos de vertebrados
foi analisado, incluindo peixes e anfíbios - que não estavam
presentes na versão anterior. No caso dos invertebrados, no entanto,
apenas a Ordem Lepidóptera e parte de Hymenoptera (Apoidea) foram
incluídas em função da disponibilidade de dados
pertinentes às análises propostas, bem como de especialistas
dispostos a executá-las, já que o convite para a participação
no esforço de elaboração dessa obra foi estendido
a pesquisadores de outros grupos, como Coleoptera, Diptera e Homoptera
(Insecta), Crustacea, Miriapoda, Arachnida, Mollusca, Annelida, Echinodermata,
Hydrozoa e Bryozoa, além de Ascidiacea. Cabe salientar que todos
esses grupos possuem especialistas no Paraná e, portanto, espera-se
que no futuro passem a enriquecer esforços para a conservação
da fauna desse Estado.
Assim, foram aqui relacionadas 163 espécies ameaçadas
para o Paraná, distribuídas em quatro categorias - RE,
CR, EN e VU, sendo 69 aves, 32 mamíferos, 22 peixes, 18 abelhas,
15 lepidópteros, quatro anfíbios e três répteis
(Tabela 1). Este total inclui quatro espécies que já desapareceram
no Estado, três aves (gralhão, Daptrius americanus;
uiraçu-falso, Morphnus guianensis; codorninha, Taoniscus
nanus) e um mamífero (preguiça-de-três-dedos, Bradypus
variegatus), indicando que os esforços de conservação
devem ser incrementados para que outras espécies, principalmente
aquelas que se encontram criticamente em perigo e que hoje representam
uma parcela significativa das espécies ameaçadas (n=41
ou 25% do total ameaçado) não venham também a desaparecer
em um futuro próximo.
Além da presença de espécies RE, a ordem reversa
entre o número de espécies ameaçadas por categoria
e o grau de ameaça sinaliza que, tal como o observado no Estado
de Minas Gerais (Fonseca & Lins, 1998), a dinâmica da perda
de espécies no Paraná já se encontra estabelecida.
Além disso, conforme apontado por Fonseca & Lins (1998), indica
que a análise feita pelos especialistas que subsidiaram a elaboração
desta obra foi criteriosa, refletindo ao menos parcialmente a realidade
da fauna do Estado.
Seguindo-se os critérios adotados no processo de revisão
da lista nacional (2003), procurou-se também aqui manter um caráter
conservativo, assegurando uma maior atenção às espécies
efetivamente sujeitas a algum tipo de ameaça (portanto nas categorias
RE, CR, EN e VU), e menor àquelas cujas informações
não permitiram o enquadramento em alguma das categorias (espécies
DD). Assim, aos taxa aqui considerados como tal (n=138), bem
como àqueles tidos como NT (n=43), caberá uma nova checagem
em revisões futuras, servindo como um estímulo para que
os próprios pesquisadores se empenhem em definir seu status de
ameaça.
Tabela 1. Número de espécies por grupo
taxonômico contidas em cada categoria de ameaça (incluindo
NT e DD) no Estado do Paraná.
Comparação com a lista anterior
Embora inevitável, a comparação da lista aqui
proposta com a lista anterior (Tabela 2), divulgada em 1995, deve ser
realizada com extrema cautela.
Primeiro, há que se ressaltar que as categorias e os critérios
adotados para a confecção dessas listas não foram
iguais. Os critérios atuais para a inclusão de espécies
em listas de ameaçados (IUCN, 2001; Gärdenfors et al.,
2001) são muito mais restritivos e objetivos do que os anteriores,
que eram subjetivamente embasados na experiência dos autores. Assim,
o que poderia ser interpretado como uma diminuição no número
de espécies ameaçadas, como observado em aves e répteis,
deve-se, na realidade, a uma correção metodológica
proveniente de análises muito mais seguras e informações
mais concretas, fornecendo uma visão mais realista e precisa da
fauna ameaçada de extinção no Paraná.
Segundo, conforme apontado na introdução do capítulo
sobre répteis, e válido para todos os grupos, “soma-se
a isso as dificuldades inerentes à coleta de dados de distribuição
geográfica, ocupação de hábitats e biologia
das espécies menos comuns, que podem determinar uma subestima
da ameaça real a que estão sujeitas”. Neste caso, muitas
das espécies que foram consideradas DD, deverão, com a
aquisição de novos conhecimentos, sofrer um upgrade,
passando a avolumar a lista de espécies efetivamente ameaçadas.
Terceiro, alguns grupos, como peixes e anfíbios, possuem um número
elevado de taxa ainda não descritas formalmente e, portanto,
não incluídas na presente revisão por força
dos critérios definidos pela IUCN, mas que podem estar ameaçadas.
No caso dos anfíbios, por exemplo, os autores estimam que 10%
da batracofauna do Estado ainda não tenham sido descritos.
Quarto, mas não menos importante, na lista atual houve a inclusão
de três novos grupos - abelhas, peixes e borboletas, que juntos
somaram 44 (27%) das 163 espécies atualmente ameaçadas
no Estado. Além disso, no grupo de mamíferos há que
se considerar que a versão anterior também não incluía
os morcegos e os chamados “pequenos mamíferos”. Assim, uma parcela
significativa do suposto aumento do número de espécies
ameaçadas no Estado deve ser creditada à inclusão
desses grupos faunísticos na análise.
Tabela 2. Número de espécies ameaçadas*
por grupo taxonômico na lista anterior do Estado do Paraná (Tossulino et
al., 1995) e na lista atual. Onde: nc= grupos taxonômicos
que não constavam da lista anterior.
* não
inclui as categorias NT e DD
**
não incluía morcegos e pequenos mamíferos
***
correção metodológica proveniente de análises
mais seguras e precisas
Percentual de espécies ameaçadas
no Estado por grupo taxonômico
A Tabela 3 demonstra que os grupos com maior percentual de espécies
ameaçadas no Estado (número de espécies ameaçadas
/ número total estimado de espécies) são os mamíferos
e as aves, seguidos de abelhas, anfíbios, peixes, répteis
e borboletas. Quando são incluídas no numerador também
as espécies NT e DD, os mamíferos e as aves repetem-se
como os grupos em situação mais preocupante, somando-se
a eles, porém, os anfíbios, aos quais se seguem os répteis,
peixes, abelhas e borboletas. Portanto, independente da análise
efetuada a ordem dos grupos manteve-se mais ou menos inalterada, com
exceção das abelhas.
A presença dos mamíferos e das aves encabeçando
essa relação pode ser parcialmente explicada pela presença
de muitas espécies de grande e médio porte, que muitas
vezes apresentam dependência de ecossistemas contínuos e/ou
pouco alterados, já praticamente inexistentes no Estado, além
de sofrerem grande pressão direta da caça e do comércio
ilegal.
Mais importante do que identificar que grupos estão mais ou menos
ameaçados, porém, é destacar que uma parcela significativa
da fauna ocorrente no Estado está ameaçada e, caso nada
seja feito para conter o processo de extinção no Paraná,
o resultado será a perda inestimável da diversidade biológica
que hoje abriga.
Tabela 3. Percentual de espécies
ameaçadas/grupo
taxonômico no Estado do Paraná.
* valores aproximados, com exceção de mamíferos e répteis
** inclui RE
A situação da fauna nos biomas do
Estado
Este item objetiva avaliar a situação da fauna nos biomas
paranaenses a partir do número de espécies ameaçadas
(RE, CR, EN, VU), quase ameaçadas
(NT) ou com dados insuficientes (DD) encontradas nos mesmos (Tabela 4).
A classificação dos biomas segue a proposta apresentada
por SEMA (2003). No entanto, foram acrescentadas categorias mais abrangentes
para contemplar espécies que não habitam um único
bioma, como a Floresta Estacional Semidecidual, mas dois ou mais ambientes
florestais, ou ainda para aquelas que ocupam tanto ambientes florestais
como campestres, colocadas sob “misto”. No caso de espécies aquáticas,
com exceção de aves e mamíferos, que foram enquadrados
na categoria “aquático”, foram utilizadas as principais bacias
do Estado. Porém, neste caso também foi necessária
a criação de classes mais abrangentes, como “bacia”, para
a ocorrência em duas ou mais bacias do Estado. O ambiente marinho,
por sua vez, foi dividido em demersal e pelágico.
Uma análise geral da conservação do Estado, dividido
em quatro regiões, foi também apresentada na Introdução
do capítulo sobre peixes e poderá ser consultada para complementar
as informações aqui apresentadas.
Examinando cada grupo taxonômico
isoladamente, percebe-se que:
1. Mamíferos
1.1. os mamíferos ameaçados
ocupam em grande parte (n=14, 44%) ambientes florestais e campestres,
chamados aqui de “misto”, embora
um percentual significativo (25%) englobe espécies estritamente
florestais. Estas, porém, ocorrem em mais de uma formação
florestal.
1.2. os mamíferos DD ocupam principalmente o ambiente “misto”,
bem como a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Ombrófila
Densa.
2. Aves
2.1. a maioria das aves ameaçadas ocorre
principalmente (n=20) nos ambientes florestais, havendo ainda uma parcela
significativa que ocorre exclusivamente na Floresta Estacional Semidecidual
(n=15).
2.2. as espécies NT e DD também se concentram principalmente
no ambiente florestal (respectivamente, 17 e 27 espécies).
3. Répteis
3.1. os poucos répteis categorizados
como ameaçados ocorrem
nos Campos Naturais ou Estepe Gramíneo-Lenhosa (n=2) e na bacia
do rio Iguaçu (n=1).
3.2. já as espécies DD dividiram-se
entre os Campos Naturais e os ambientes florestais.
4. Anfíbios
4.1. os quatro anfíbios ameaçados
são florestais,
mas ocorrem exclusivamente em uma ou outra formação: Floresta
Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Densa ou Floresta
Ombrófila Mista.
4.2. as espécies DD também são
todas florestais, concentrando-se principalmente na Floresta Ombrófila
Densa (n=13).
5. Peixes
5.1. os peixes de água doce ameaçados
são em sua
maioria da bacia do rio Paraná (n=8), embora a bacia do rio Iguaçu
também contenha um número expressivo de espécies
ameaçadas (n=5). As espécies ameaçadas marinhas
são basicamente demersais.
5.2. as poucas (n=3) espécies
NT, todas de água doce,
ocorrem na bacia do rio Paraná.
5.3. já as espécies
DD de água doce concentram-se
nos riachos litorâneos (n=6) e as espécies de ambientes
marinhos distribuem-se uniformemente entre demersais (n=8) e pelágicas
(n=8).
6. Abelhas
6.1. as abelhas ameaçadas ocorrem principalmente
na Floresta Ombrófila Densa (n=6) e no Cerrado (Savana Arborizada)
(n=4).
7. Borboletas
7.1. as borboletas e mariposas ameaçadas
ocorrem basicamente nos ambientes florestais, sendo algumas espécies
restritas a uma formação (FES, FOD ou FOM) e outras comuns
a duas ou mais delas. Um número significativo (n=3) também
ocorre nos Campos Naturais (Estepe Gramíneo-Lenhosa).
No geral, os ambientes florestais, que dominam o Estado, contêm
a maior parte das espécies ameaçadas terrestres, destacando-se
a Floresta Estacional Semidecidual como detentora de grande parte da
fauna paranaense ameaçada. Certamente esta condição
está relacionada ao elevado grau de destruição e
fragmentação desta formação florestal, principalmente
na porção noroeste do Estado, onde deu lugar aos cultivos
e pastagens. É importante destacar que o Cerrado, embora ocupe
uma porção muito pequena do Estado, abriga um número
elevado de espécies ameaçadas (seis aves e quatro abelhas),
provavelmente em função dos endemismos e do elevado grau
de alteração antrópica deste bioma.
Quando as espécies NT e DD também são consideradas,
embora o ambiente florestal também seja predominante, percebe-se
uma distribuição mais uniforme no número de espécies
sob risco nos diferentes ambientes, destacando-se a Floresta Ombrófila
Densa, a Floresta Estacional Semidecidual e o ambiente “misto”, indicando
que os ambientes mais abertos (Cerrado e Campos Naturais) abrigam uma
parcela significativa de espécies sob algum risco de extinção.
Para as espécies aquáticas (exceto de mamíferos
e aves), as bacias dos rios Paraná e Iguaçu são
os ambientes que abrigam o maior número de ameaçadas, além
do ambiente marinho demersal. Considerando também as espécies
DD e NT, o ambiente marinho pelágico, onde se concentra um grande
número de espécies de répteis e peixes DD, também
se destaca por conter um percentual significativo de animais sob risco
de extinção.
Portanto, embora alguns biomas terrestres ou aquáticos destaquem-se
pela presença de um maior número de espécies ameaçadas,
a maior parte dos biomas e ecossistemas do Estado do Paraná encontra-se
sob risco em função das alterações antrópicas
provocadas pela expansão urbana, uso inadequado do solo, desmatamento,
assoreamento, poluição, exploração dos recursos
naturais etc. Assim, é preciso buscar, com urgência, remanescentes
significativos de todos os biomas do Estado, protegendo-os integralmente
através de unidades de conservação de uso restrito,
além de fazer cumprir a legislação no que diz respeito à conservação
do solo, à proteção dos corpos d'água, à caça
e à pesca ilegais.
Principais ameaças à fauna paranaense
De maneira geral, a maior ameaça à fauna do Estado é a
destruição ou alteração dos ambientes naturais,
sejam eles terrestres ou aquáticos (Tabela 5). Esta ameaça,
que engloba os desmatamentos, a implantação de extensas áreas
agrícolas, pastagens e monoculturas exóticas (p. ex. pínus),
as atividades de exploração mineral e as alterações
físicas e estruturais dos corpos d'água, é a principal
responsável pela situação de 88% das espécies
ameaçadas, 93% das espécies NT e 86% das espécies
DD. No conjunto, a destruição dos hábitats é o
principal fator responsável pela inclusão de 88% das espécies
constantes na presente obra.
Tabela 4. Biomas de ocorrência das espécies
ameaçadas (RE, CR, EN, VU), quase ameaçadas (NT) e com dados
insuficientes (DD) da fauna no Estado do Paraná.

Legenda
GRUPO (grupo taxonômico): MAM= mamíferos; AVE= aves;
REP= répteis; ANF= anfíbios; PEI= peixes; ABE= abelhas; BOR=
borboletas
CAT (categoria de ameaça): am= ameaçadas, incluindo
as categorias RE, CR, EN e VU; NT= quase ameaçadas; DD= dados
insuficientes
BIOMAS: FES= Floresta Estacional Semidecidual; FOD= Floresta Ombrófila
Densa; FOM= Floresta Ombrófila Mista; FPF= formações
pioneiras de influência fluvial, fluviomarinha e marinha; EGL=
Estepe Gramíneo-Lenhosa (Campos Naturais); SAR= Savana Arborizada
(Cerrado); flo= ocorrência em dois ou mais ambientes florestais
(FES, FOD, FOM); cam= ocorrência nos dois ambientes campestres
(EGL e SAR); mis= ocorrência em dois ou mais ambientes florestais
e campestres; aqu= ambientes aquáticos; RLI= riachos litorâneos;
BRP= bacia do rio Paraná; BRI= bacia do rio Iguaçu; BRR=
bacia do rio Ribeira; bac= ocorrência em mais de uma bacia; AMD=
ambientes marinhos e estuarinos demersais; AMP= ambientes marinhos
e estuarinos pelágicos.
Tabela 5. Principais ameaças à fauna
no Estado do Paraná.

Legenda
GRUPO (grupos taxonômicos) e CAT (categoria de ameaça) – vide legenda
Tabela 3.
AMEAÇAS: DH – destruição de hábitat, podendo
ser parcial ou total, incluindo desmatamentos, modificação
e supressão da vegetação nativa para implantação
da agricultura, pecuária, reflorestamentos com monoculturas exóticas,
mineração e alterações nos corpos d'água;
PO – poluição: acústica, no caso de embarcações,
química: proveniente de esgotos domésticos e industriais,
e resíduos agroquímicos, além de acidentes químicos;
inclui também a poluição causada por resíduos
sólidos; QU – queimadas, principalmente criminosas; CA – caça,
incluindo caça esportiva, para alimentação ou para
uso de partes do animal para confecção de amuletos e adornos
ou na medicina popular; inclui ainda a predação por cães
ferais e o abate de morcegos para controle da raiva; EI – expansão
imobiliária; FA – perda de fontes alimentares e desequilíbrio
ecológico, podendo a primeira ser causada pela destruição
direta da fonte alimentar, sua contaminação ou exploração;
FI – falta de informações a respeito da biologia/ecologia
da espécie; CI – comércio ilegal: apanha de espécimes
para serem vendidos como animais de estimação, incluindo
a aquariofilia e o comércio de peles; HR – hidrelétricas
e represas; SP – sobrepesca; PA – pesca acidental em redes ou espinhéis;
AG – agroquímicos: podendo ser por aplicação direta
sobre os indivíduos ou suas fontes alimentares, ou ainda por penetração
no solo ou lixiviação para corpos d'água; TU – turismo
desordenado em cavernas, áreas montanhosas e ilhas ou com uso
de embarcações; EE - introdução de espécies
exóticas que podem atuar como predadoras ou competidoras; DO – doenças
transmitidas por animais domésticos; AT – atropelamentos.
No caso
de Peixes, o primeiro valor refere-se sempre às espécies marinhas
e o segundo às de água doce.
O segundo fator mais impactante para a sobrevivência da fauna é a
poluição, tanto química, quanto sonora, podendo
ser causada por embarcações, esgotos domésticos
e industriais, despejos irregulares de lixo e acidentes químicos.
Este fator, geralmente aliado ao primeiro, é responsável
pela situação de quase 22% da fauna em risco do Estado.
As queimadas, principalmente de caráter criminoso, com o objetivo
de “limpar” áreas de Campo e Cerrado, são mais um importante
fator de ameaça intimamente relacionado ao primeiro. Foram citadas
como importante causa de ameaça para quase 18% das 344 espécies
incluídas na presente obra. Com um percentual de impacto semelhante
(17%) aparece a caça, tanto para a alimentação,
quanto para a recreação ou obtenção de amuletos
e adornos, ou para uso na medicina popular. Esta categoria inclui ainda
o abate de animais por cães ferais e o abate de morcegos para
o controle da raiva.
Três outros fatores com impacto (quantitativo) semelhante (aproximadamente
13% das espécies listadas são afetadas por eles) são
as expansões imobiliárias que vêm ocorrendo principalmente
no litoral do Estado e está intimamente relacionada à destruição
do hábitat e à poluição, a perda de fontes
alimentares, principalmente devido à sua extração
ou contaminação, e a falta de informações
básicas sobre as espécies, impedindo que medidas efetivas
de proteção possam ser tomadas para a sua proteção.
O comércio ilegal ou tráfico de espécies da fauna
também é responsável por uma parcela significativa
(9%) das ameaças impostas a estas, atingindo principalmente mamíferos,
aves e peixes (aquariofilia). A construção de usinas hidrelétricas
e represas, que alteram a dinâmica dos corpos d'água e alagam
porções consideráveis do território, ameaça,
em maior ou menor grau, 8% das 344 espécies aqui relacionadas.
Com impacto semelhante aparecem ainda a sobrepesca, a pesca acidental
(que ameaça mamíferos, aves e répteis, além
dos peixes) e o uso indiscriminado de agroquímicos,principalmente
aqueles aplicados por aviões, que contaminam os animais e seus
alimentos, além do solo e da água.
O turismo em cavernas, áreas montanhosas e ilhas também
pode ser danoso para a fauna quando realizado sem controle. Esta atividade é responsável
por colocar em risco 17 espécies no Estado, principalmente mamíferos,
aves e anfíbios. Outros fatores de impacto para a fauna paranaense
são a introdução de espécies exóticas,
que vem ameaçando alguns peixes (três espécies),
as doenças transmitidas por animais domésticos, que colocam
sob risco cinco mamíferos silvestres, e os atropelamentos, que
também vêm causando declínios perceptíveis
nas populações de quatro espécies de mamíferos
e um anfíbio.
Quando examinados os grupos taxonômicos separadamente, percebemos
que os principais fatores de ameaça aos mamíferos são,
além da destruição do hábitat, a caça
e a perda de fontes alimentares, que juntos representam 66% dos registros
para este grupo. No caso das aves a poluição, as queimadas,
a carência de informações sobre várias espécies,
a caça, a expansão imobiliária e o tráfico
são, junto com a supressão da vegetação,
as principais causas do declínio populacional da maioria das espécies.
Para os répteis, além da alteração do ambiente,
da poluição e das queimadas, outro fator que afeta significativamente
a sobrevivência de várias espécies é a pesca
acidental.
Os anfíbios, por sua vez, são particularmente afetados
pela alteração do ambiente, pela poluição
e pelo turismo, que quando exercido sem controle, pode danificar seriamente
pequenas populações isoladas. No caso dos peixes marinhos
a sobrepesca, a pesca acidental e a falta de informações
sobre a biologia e a ecologia das espécies, são os principais
fatores de ameaça. Já para as espécies de água
doce, os fatores mais impactantes são a destruição
ou alteração dos corpos d'água e ambientes circunvizinhos,
que estão particularmente relacionadas à construção
de barragens e usinas hidrelétricas ou à expansão
imobiliária que ocorre na planície litorânea do Estado.
A quase totalidade das abelhas está ameaçada em função
da alteração dos seus hábitats, sendo a perda de
fontes alimentares, o uso de agrotóxicos e a expansão imobiliária
outros fatores de impacto significativos. Para os lepidópteros,
a extinção de espécies está diretamente relacionada à destruição
dos ambientes e ao uso do fogo para a “limpeza” de ambientes abertos
naturais.
Medidas de conservação
As medidas de conservação propostas pelos autores
ao longo dos capítulos foram reunidas em sete categorias: proteção/recuperação
de hábitats, pesquisas, fiscalização/controle, educação
ambiental, conservação ex situ, reintrodução
e saneamento básico. O volume de espécies por grupo, para
as quais foram propostas tais medidas, pode ser apreciado na Tabela 6,
a qual apresenta ainda o montante de pesquisas conduzidas com estes animais
no Estado.
Em função da grave situação em que se encontram
os ambientes naturais terrestres e aquáticos no Estado do Paraná,
e do grande número de espécies ameaçadas em função
desse fator, a principal medida proposta para reverter este quadro é a
proteção e/ou recuperação desses ambientes
através da criação, ampliação ou implementação
de unidades de conservação de uso restrito, bem como através
da implantação de corredores formados, principalmente,
através da recuperação de florestas ciliares.
A proposição de pesquisas para ampliação
do conhecimento sobre as espécies e o seu monitoramento também
foi considerada fundamental para a sobrevivência de 80% das 344
espécies
incluídas na presente publicação, notadamente aquelas
tratadas como DD, justamente porque lhes faltam dados que permitam uma
avaliação segura do seu status de ameaça.
Quanto à realização de pesquisas, cabe mencionar
que para apenas 28 espécies (8%) foram citados estudos em andamento
ou recém concluídos no Estado. As pesquisas propostas foram
principalmente sobre a biologia e a ecologia das espécies, bem
como sobre a sua distribuição no Estado, enfatizando o
mapeamento e a busca de novas populações, bem como o monitoramento
das mesmas.
A fiscalização e o controle de atividades impactantes
ou predatórias, como a caça, a pesca, os desmatamentos,
as queimadas, o uso de agroquímicos, os empreendimentos imobiliários
e a execução de obras de grande porte, devem ser intensificadas
para que seja cumprida a legislação ambiental vigente.
Neste particular, a educação ambiental, também citada
como uma medida importante para a conservação das espécies
da fauna do Estado, é uma importante aliada. A conservação ex
situ e a introdução foram citadas como medidas importantes
para algumas espécies, devendo-se destacar que estas medidas,
mas principalmente a reintrodução, devem ser realizadas
com critério científico e somente em casos em que os benefícios
superem os possíveis riscos, que devem ser monitorados constantemente
ao longo de todo o processo. Finalmente, o saneamento básico é citado
como uma medida importante para garantir a sobrevivência de algumas
espécies, mas certamente a importância e a necessidade da
aplicação desta medida foi subestimada pelos autores, haja
vista o grande número de espécies ameaçadas pela
poluição no nosso Estado e o precário sistema de
saneamento encontrado na maioria dos municípios.
Tabela 6. Medidas de conservação
propostas ou em andamento para a fauna no Estado do Paraná.

Legenda
GRUPO (grupos taxonômicos) e CAT (categoria
de ameaça) -
ver a legenda à Tabela 3.
MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO: PH - proteção e recuperação
de hábitats, incluindo a criação, ampliação
e implementação de unidades de conservação
de proteção integral, a recuperação de florestas
ciliares e corpos de água, bem como a formação de
corredores; PP - pesquisas propostas, principalmente sobre biologia, ecologia,
distribuição (mapeamento) e taxonomia; inclui a busca de
populações e o seu monitoramento e manejo; PA - pesquisas
em andamento no Estado, principalmente sobre biologia, ecologia, distribuição,
dieta, comportamento, variabilidade genética e densidade populacional;
FC - fiscalização e controle de atividades impactantes e
predatórias, como caça, pesca, desmatamentos, empreendimentos
imobiliários, implantação de indústrias e o
uso inadequado de agroquímicos; EA - educação ambiental;
CE - conservação ex situ ; RE - reintrodução;
SA - saneamento básico, para controlar a poluição
por dejetos domésticos.
No caso de Peixes, o primeiro valor refere-se
sempre às espécies
marinhas e o segundo às espécies de água doce.
Presença das espécies nas unidades de conservação
A Tabela 7 exibe o número de espécies ameaçadas
(RE, CR, EN, VU), quase ameaçadas (NT) ou com dados insuficientes
(DD), com registros confirmados em unidades de conservação
localizadas no Paraná. Percebe-se que, das mais de 220 unidades
de conservação presentes no Estado (ver Figura 2), apenas
61 (cerca de 26%) possuem registros de espécies ameaçadas.
Algumas considerações iniciais sobre um terço dessas
61 áreas protegidas, justamente as que apresentaram o maior volume
de registros de espécies ameaçadas, NT e DD, podem ser
realizadas:
O Parque Nacional do Iguaçu (60 registros),
conhecido ícone da conservação nacional, é a área
protegida com o maior número de espécies constatadas entre
todas as unidades de conservação paranaenses, abrigando
16 mamíferos, 13 aves, um réptil, um peixe e três
borboletas ameaçadas, além de 26 animais NT ou DD; é a
unidade recordista de mamíferos ameaçados. Por sua extensão
(mais de 185.000 ha), antiguidade (criado em 1939), relevância
como maior bloco contínuo de Floresta Estacional no Estado e proximidade
de outras áreas protegidas na Argentina e no Paraguai, espera-se
que grande parte das espécies previsivelmente ocorrentes neste
Parque de fato aí ocorram, aumentando consideravelmente o seu
reconhecimento como reduto faunístico extremamente relevante (ver
item “Presença e situação em unidades de conservação”,
em cada espécie tratada ao longo deste livro).
A APA Estadual de Guaratuba (47 registros), até o
presente, é a unidade que possui o segundo maior número
de constatações, com a predominância das aves: 20
espécies ameaçadas, além de outras 16 que merecem
atenção especial (NT e DD). Trata-se de uma grande (quase
200.000 ha) unidade de conservação de uso direto que abriga
diversas formações dentro das florestas ombrófilas
Densa e Mista, bem como ambientes aquáticos marinhos, de água
doce e estuarinos, e por isso é merecedora de grande atenção
conservacionista. A sua proximidade e facilidade de acesso a partir de
Curitiba, maior pólo de pesquisa zoológica do Paraná,
também auxiliou nesta sua posição.
A APA Federal de Guaraqueçaba (46 registros),
além de 15 aves ameaçadas, abriga um peixe e cinco mamíferos
ameaçados. Nesta enorme unidade de conservação (mais
de 290.000 ha) de uso direto, com características semelhantes às
da APA Estadual de Guaratuba, boa parte do conhecimento gerado provém
de pesquisas desenvolvidas em duas outras unidades de conservação
inseridas em sua área, o Parque Nacional do Superagüi (22
registros), a RPPN Federal Reserva Natural Salto Morato (20
registros), área particular com o maior volume de pesquisas zoológicas
no Estado, e a Estação Ecológica de Guaraqueçaba (dois
registros). Juntas, estas quatro áreas protegidas apresentam uma
considerável quantidade de constatações entre todos
os vertebrados ameaçados, NT ou DD (terrestres, marinhos ou de água
doce): seis mamíferos, 31 aves, três répteis, um
anfíbio e cinco peixes, destacando-se o Parque Nacional como grande área
de proteção integral (mais de 34.000 ha).
O Parque Estadual de Vila Velha (35 registros), apesar
da proximidade de grandes centros urbanos como Curitiba e Ponta
Grossa, de se avizinhar a extensas zonas agropastoris e contar com intensa
visitação turística, apresenta um significativo
número de animais que merecem atenção especial,
inclusive com a predominância dos mamíferos (dez ameaçados
e dez DD) sobre as aves (três ameaçadas, seis NT e quatro
DD), além de abrigar uma abelha e um réptil também
ameaçados. É a mais antiga unidade estadual de conservação
(criada em 1953) e uma das mais estudadas até o momento, contando
com inventários de todos os vertebrados e de inúmeros grupos
de invertebrados, notadamente de insetos (dados do IAP e do MHNCI).
O Parque Estadual Mata dos Godoy (28 registros), a
despeito da extensão consideravelmente pequena (675 ha) e de sua
inserção numa matriz absolutamente antrópica (monoculturas
agrícolas), ganha destaque como relicto de Floresta Estacional
Semidecidual contendo um anfíbio, nove mamíferos e 18 aves
merecedores de atenção especial (ameaçados, NT e
DD). Sem dúvida este status se deve aos inúmeros
esforços de pesquisa que têm sido realizados nesta unidade
de conservação, em especial pela Universidade Estadual
de Londrina.
Na Estação Ecológica do Caiuá (27
registros) vivem sete mamíferos e dez aves ameaçadas. Apesar
desta Estação encontrar-se entre as unidades de conservação
com o maior número de constatações no Estado, é significativa
a ausência de quaisquer outros registros de espécies (mesmo
NT e DD) entre os demais grupos animais aqui tratados, o que denuncia
a necessidade de intensificar estudos no local.
O Parque Estadual do Cerrado (26 registros) se destaca
pela quantidade de abelhas ameaçadas ali constatadas (cinco espécies),
inclusive algumas endêmicas do Estado. Embora seja uma unidade
de conservação de tamanho reduzido (cerca de 420 ha), próxima
de um centro urbano (Jaguariaíva) e inserida numa matriz ambiental
bastante alterada, encerra ainda seis mamíferos e quatro aves
sob ameaça de extinção no Paraná.
Duas áreas que podem ser tratadas conjuntamente, por sua estreita
relação geográfica, são a Área
de Especial Interesse Turístico do Marumbi (26 registros)
e o Parque Estadual Pico do Marumbi (23 registros).
Entre ambas, além de quatro aves e dois mamíferos ameaçados
(grupos sempre importantes como referência conservacionista), destacam-se
nove anfíbios DD, alguns dos quais endêmicos do Paraná,
sendo estas as unidades de conservação recordistas para
anfíbios merecedores de atenção especial no Paraná.
O Parque Nacional de Ilha Grande (24 registros) abriga
14 espécies ameaçadas, seis NT e quatro DD, entre mamíferos,
aves e peixes. A importância deste Parque, conjuntamente com a APA
Federal das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná (18
registros), reside principalmente em sua posição geográfica
em zona de transição entre faunas distintas do Brasil Central
(com influência do Cerrado e do Pantanal) e do Brasil subtropical
sulino. Além disso, essas duas unidades federais de conservação
constituem um arquipélago com várzeas, lagoas e outras
formações fluviais únicas, em todo o noroeste e
oeste do Estado, como sítio de reprodução, forrageamento
e abrigo para muitos peixes em situação de risco e diversas
formas paludícolas de répteis, aves (migratórias
ou residentes) e mamíferos.
A Floresta Estadual do Palmito (17 registros) ocupa
a quinta posição, entre as 61 unidades de conservação
aqui enfocadas, em termos de aves ameaçadas, com nove espécies.
Esse fato é significativo em face de sua extensão muito
menor (530 ha) do que as unidades precedentes, e sem dúvida reflete
o quanto essa área é ornitologicamente bem estudada, posto
que dos demais grupos apenas se constatou ali um peixe e um mamífero,
ambos DD.
O Parque Nacional Saint-Hilaire-Lange (16 registros)
ainda não possui um inventário faunístico sequer
razoável, em função da pouca atenção
que tem recebido por parte dos pesquisadores e das autoridades ambientais.
Contudo, um anfíbio, dois mamíferos e 13 aves, relevantes
sob a ótica deste Livro Vermelho, foram constatados nessa unidade
de conservação, em geral produto de investigações
zoológicas anteriores à criação do Parque
(ano de 2001). Pelo potencial desta área, um número ainda
expressivo de registros de espécies ameaçadas ainda poderá ser
feito, haja vista ser vizinho de outras unidades ricas em constatações.
No centro-noroeste do Paraná se destaca o Parque Estadual
Vila Rica do Espírito Santo (16 registros), pela quantidade
de mamíferos (nove ameaçados e quatro DD) e aves (uma
ameaçada e duas DD), principalmente por suas dimensões
reduzidas (354 ha), sua proximidade de um centro urbano (Fênix)
e seu isolamento em meio a extensas zonas agrícolas, constituindo-se
num importante reduto de fauna para aquela região do Estado.
A RPPN Estadual Fazenda Monte Alegre (16 registros) é a
maior unidade de conservação particular no Paraná (mais
de 3.800 ha), abrangendo ambientes de Floresta Estacional Semidecidual,
Floresta Ombrófila Mista e Campos Naturais. Possui uma ave e sete
mamíferos ameaçados, além de muitos registros relevantes
feitos em suas proximidades, incluindo borboletas, anfíbios e
répteis ameaçados.
Na seqüência, pela ordem de constatações de
espécies ameaçadas, NT e DD, aparecem os parques estaduais
de Caxambu (14 registros), Lauráceas (13
registros), Ilha do Mel (12 registros), Guartelá (12
registros) e Rio Guarani (11 registros), encerrando
diferentes biomas presentes no Estado. Essas cinco unidades de conservação
também estão aqui destacadas por apresentar ocorrências
significativas de mamíferos ameaçados (respectivamente
oito, seis, quatro, quatro e três espécies), em alguns casos
em função da existência de inventários faunísticos
(casos de Caxambu, Ilha do Mel e Rio Guarani).
A APA Estadual da Escarpa Devoniana destaca-se de forma negativa face
o confronto entre sua grande extensão geográfica (quase
400.000 ha) e o diminuto número total de registros a ela atribuídos
(apenas um mamífero ameaçado e outro DD), demonstrando
um esforço irrisório de estudos na região. Em muitos
casos este fato é simplesmente uma questão de amostragem,
já que certas unidades de conservação foram significativamente
melhor trabalhadas para um determinado grupo taxonômico (como a
Estação Ecológica do Caiuá para mamíferos
e aves ou o Parque Estadual Pico do Marumbi para anfíbios) do
que outras (como o Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo,
sem registros de abelhas). De um modo geral, porém, fica patente
que as unidades de conservação que apresentaram números
mais expressivos de espécies ameaçadas, NT ou DD foram:
(1) as que apresentam grandes dimensões, mesmo não sendo
de proteção integral, como nas APAs de Guaratuba, Guaraqueçaba
e das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná, ou nos parques nacionais
do Iguaçu e Superagüi;
(2) as que possuem estudos zoológicos e inventários faunísticos,
mesmo que incompletos ou não publicados, como é o caso
dos parques estaduais de Vila Velha, Mata dos Godoy, Cerrado, Vila Rica
do Espírito Santo, Caxambu e Ilha do Mel, da Estação
Ecológica de Caiuá, da Floresta Estadual do Palmito e da
RPPN Reserva Natural Salto Morato; e
(3) as que abrangem mais de uma formação florestal ou
bioma, ou englobam ambientes marinhos, como acontece com as APAs de Guaratuba
e Guaraqueçaba, a RPPN Fazenda Monte Alegre e os parques estaduais
do Guartelá e do Rio Guarani.
Percebe-se que as espécies ameaçadas na fauna paranaense
estão presentes em unidades de conservação de diversas
categorias, desde pertencentes a diferentes esferas governamentais (municipal,
estadual ou federal) até privadas. Isso não significa,
porém, que estejam efetivamente protegidas, seja pelo caráter
pouco restritivo da unidade em que ocorrem, como no caso das APAs, seja
pelo tamanho reduzido da área e seu grau de isolamento. Este é o
caso dos parques estaduais do Cerrado e Vila Rica do Espírito
Santo, que além de diminutos, estão cercados por uma matriz
alterada e inóspita para a maioria das espécies típicas
dos ambientes que visam proteger (respectivamente o Cerrado e a Floresta
Estacional Semidecidual).
Das 344 espécies tratadas na presente obra, 106 (31%) ainda não
foram registradas em unidades de conservação localizadas
no Paraná, o que além de demonstrar uma relativa carência
de pesquisas de campo realizadas no Estado, alerta para a necessidade
de criar novas unidades de conservação, além de
ampliar algumas já existentes e, principalmente, restabelecer
conexões naturais (corredores) entre áreas hoje isoladas
para aumentar a sua efetividade. O problema é mais sério
no caso de anfíbios, peixes, abelhas e borboletas, grupos nos
quais 50% ou mais das espécies ameaçadas não contam
com registros em áreas protegidas no Estado do Paraná.
Mesmo nos demais grupos, muitas espécies foram registradas em
APAs, unidades que apresentam pouco controle das atividades e impactos
antrópicos, conferindo-lhes assim um baixo nível de proteção.
Tabela 7. Número de espécies
ameaçadas,
quase ameaçadas ou com dados insuficientes, com registros confirmados
em áreas protegidas localizadas no Estado do Paraná.

Legenda
AEIT = Área de Especial
Interesse Turístico do Marumbi;
APA = Área de Proteção Ambiental; ARIE = Área
de Relevante Interesse Ecológico; EE = Estação
Ecológica; FE = Floresta Estadual; FLONA = Floresta Nacional;
PARNA = Parque Nacional; PE = Parque Estadual; PF = Parque Florestal;
PM = Parque Municipal; RB = Reserva Biológica; RN = Reserva Natural;
RPPN = Reserva Particular do Patrimônio Natural; mam = mamíferos;
ave = aves; rep = répteis; anf = anfíbios;
pei = peixes; abe = abelhas; bor = borboletas; am = espécies
ameaçadas; NT = espécies quase ameaçadas; DD = espécies
com dados insuficientes.
|