Tenha paciência, afinal são 344 espécies
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Prefácio

Ibsen de Gusmão Câmara

Entre longos intervalos de tempo medidos em dezenas ou centenas de milhões de anos e devido a causas ainda não perfeitamente esclarecidas, a vida no planeta Terra passa por intensas   crises de extinção nas quais um grande número de espécies desaparece. A mais conhecida delas, embora não tenha sido a maior de todas, atingiu no final do Cretáceo grande parte da biota marinha, os famosos dinossauros e muitos outros representantes da fauna terrestre contemporânea. Mais recentemente, na época pleistocênica, novo espasmo de extinções eliminou considerável parcela da megafauna de mamíferos, atingindo pesadamente a fauna pré-histórica neotropical e, com ela, a brasileira. Hoje, presenciamos mais uma dessas profundas crises biológicas, agora gerada pelas ações desastradas de uma única espécie, um primata anômalo que se auto intitula Homo sapiens.

Conquanto todos concordem que o presente ritmo de extinções evidencia-se extremamente intenso e que suas causas primordiais são a explosão demográfica, a rápida ocupação humana dos continentes e o uso abusivo dos recursos vivos, os cientistas divergem quanto ao grau de intensidade em que elas acontecem. Se forem incluídas as perdas definitivas em microrganismo, fungos e invertebrados, além daquelas relativas às plantas e animais vertebrados mais conspícuos, as estimativas indicadas na literatura variam entre 50 a 250 espécies eliminadas a cada dia. Somente nas florestas tropicais, o renomado biólogo Edward O. Wilson, em livro publicado no ano 1972, avaliou àquela época estar ocorrendo um ritmo de extinções da ordem de 27.000 espécies por ano, ou seja, 74 a cada dia e três por hora. Essas estimativas alarmantes não demonstram, porém, toda a gravidade do problema. Um número muitíssimo maior de espécies está com populações reduzidas e rapidamente decrescentes, vivendo em hábitats cada vez menores e mais fragmentados, e indicando evidente agravamento futuro da atual crise de extinções.

A situação brasileira não foge à regra. País que se destaca pela imensa diversidade biológica que possui - embora seguramente não haja ainda dados suficientes para afirmar-se que a ostenta em maior grau no mundo, o Brasil vem presenciando nas últimas décadas uma acelerada ocupação do seu território e o empobrecimento significativo de todos os biomas. Em alguns casos, esse processo de substituição dos ecossistemas naturais por extensas áreas de monoculturas ou com pecuária extensiva atinge dimensões de difícil visualização. De acordo com os dados oficiais publicados, a Amazônia Legal, que na verdade é um imenso complexo de ecossistemas díspares, vem sendo desmatada ininterruptamente num ritmo médio superior a 50 quilômetros quadrados por dia, durante os últimos 25 anos. Já é amplamente conhecido que outro bioma com enorme grau de biodiversidade, a Mata Atlântica, está hoje reduzido a menos de oito por cento de sua extensão original, e a maior parte do que dele restou são remanescentes florestais extremamente fragmentados e biologicamente empobrecidos, embora ainda restem algumas formações razoavelmente extensas nas regiões onde a topografia acidentada dificultou a ocupação humana, tal como ocorre nas regiões serranas do Paraná. Estes dois exemplos de ricos biomas fortemente agredidos levam-nos a imaginar o número colossal de espécies menos perceptíveis da flora e da fauna brasileiras que já foram ou estão sendo eliminadas, muitas delas desconhecidas pela Ciência.

O Paraná se destaca de outros estados brasileiros pela diversidade de ecossistemas, mas dentre eles as florestas ombrófilas mistas, as estacionais e os campos já foram largamente degradados ou, em vastas extensões, completamente eliminados. Testemunhei pessoalmente esta brutal e célere destruição da natureza entre os anos 1960-70 por ter na época sobrevoado repetidamente o oeste do Estado, coberto de início por um extenso e contínuo tapete verde de florestas virgens. Lembro-me bem de uma termoelétrica a lenha e uma pequena ferrovia, na região de Guaíra, que só aceitavam madeira de lei como combustível, devido ao seu maior poder calorífico; o que então não se usava como lenha ou para atividades industriais ainda incipientes, era impiedosamente destruído no campo a fim de ceder lugar à agricultura. Em face desses desatinos do passado, o Estado enfrenta hoje pesada ameaça de extinção de grande parte de sua biota.

Uma das medidas adotadas para se estimar os danos das atividades humanas à flora e à fauna é o levantamento periódico das espécies consideradas ameaçadas de extinção, empreendimento hoje comum em muitos países e efetuado, em âmbito global, pela União Mundial para a Conservação da Natureza - IUCN. As relações de espécies decorrentes desses estudos são necessariamente sempre incompletas, uma vez que somente um conhecimento detalhado e profundo dos ecossistemas, quase impossível nos ambientes tropicais e subtropicais, permitiria uma visão acurada da realidade. Não obstante, tais relações, mesmo imperfeitas, são uma ferramenta importantíssima para o planejamento e a execução de ações conservacionistas que em sua ausência seriam quase impraticáveis.

No Brasil, a primeira tentativa nesse sentido ocorreu em um encontro denominado Reunião Técnica sobre Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, realizado no Rio de Janeiro, em outubro de 1971, sob os auspícios do Conselho Nacional de Pesquisas, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF (hoje extinto), do Museu Nacional do Rio de Janeiro, da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza - FBCN, da Associação de Defesa da Flora e da Fauna do Estado de São Paulo, do Centro Espírito-santense de Conservação da Natureza e do Instituto de Conservação do Estado da Guanabara. Os resultados desse histórico encontro, embasado nos precários dados então disponíveis, retrataram com a possível fidelidade a situação na época dos mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes brasileiros, e foram divulgados em livro editado pela Academia Brasileira de Ciências em 1972, sob o título Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. Uma decorrência importante desse evento memorável foi a publicação da primeira lista oficial brasileira da fauna ameaçada.

Num país de dimensões continentais, com ampla diversidade de condições no que se refere à conservação de ecossistemas, uma única lista nacional de espécies ameaçadas evidentemente não satisfaz para avaliação mais criteriosa do status de nossa flora e fauna. Muito meritória, portanto, foi a iniciativa de organizarem-se e divulgarem-se listas estaduais, surgida no Paraná em 1995 e repetida em outros estados, estes infelizmente ainda em pequeno número. As listas estaduais permitem caracterizar os problemas existentes regionalmente, viabilizando medidas de conservação condizentes com situações locais específicas, que podem diferir muito expressivamente entre estados distintos. A presente revisão da lista do Paraná é pois altamente oportuna, em face da rapidez com que as atividades antrópicas se ampliam no Estado, atingindo alguns dos últimos fragmentos de ecossistemas com singular importância, a exemplo das florestas de araucária. Particularmente válido foi o esforço de inclusão dos peixes e de alguns táxons de invertebrados, até recentemente omitidos ou abordados com inaceitável superficialidade nas listas nacionais. Importante é também ressaltar não se restringir a nova lista paranaense a uma simples relação de espécies, cujos reflexos na conservação seriam limitados; muito acertadamente fizeram-na englobar, para cada espécie, dados relativos aos critérios de inclusão na lista, áreas de distribuição conhecida, presença em unidades de conservação, medidas de conservação aconselháveis e informações gerais sobre o táxon considerado. Correta também foi a decisão de adotar os critérios da IUCN para estabelecimento de categorias de ameaça e justificativas de inclusão, em benefício da uniformidade do processo de avaliação.

É oportuno lembrar que, à vista da generalizada eliminação dos hábitats, as unidades de conservação tendem a se tornar os últimos refúgios para muitas espécies e as únicas amostras dos ecossistemas em sua composição original. Seu valor como amostragem da biodiversidade do planeta é imensurável e crescerá sempre na medida em que os ambientes naturais desaparecerem. No entanto, tais áreas geograficamente limitadas tendem a uma inevitável simplificação biológica ao longo do tempo, já evidenciada e quantificada em estudos realizados no exterior, cuja minimização só poderá ser alcançada com manejo cientificamente controlado, somente viável com o conhecimento aprofundado das espécies protegidas. Indicar sua existência nas unidades de conservação é pois indispensável, não só para permitir o acompanhamento da dinâmica populacional dentro das unidades, como também para identificar lacunas e sugerir medidas corretivas.

Contudo, são também pertinentes algumas palavras de precaução. As listas de fauna ameaçada, embora absolutamente essenciais para a adoção de medidas de proteção, também apresentam um lado negativo. Como me foi possível constatar em viagens pelo País, elas significam uma facilitação do trabalho dos traficantes de fauna, permitindo-lhes selecionar espécies raras e indicando áreas de ocorrência. A divulgação dos conhecimentos sobre as espécies ameaçadas exige, portanto, providências simultâneas severas para coibir o comércio ilícito de fauna.

Os dezenove autores da revisão da lista, bem como os participantes da reunião de trabalho que para ela contribuíram, podem orgulhar-se de terem produzido uma obra de suma importância, retratando os avanços realizados no conhecimento da fauna paranaense e fornecendo valiosos subsídios para sua adequada conservação. A Nação fica-lhes devedora de um excelente serviço.