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Prefácio
Ibsen de Gusmão Câmara
Entre longos intervalos de tempo medidos em dezenas ou centenas
de milhões
de anos e devido a causas ainda não perfeitamente esclarecidas,
a vida no planeta Terra passa por intensas crises de extinção
nas quais um grande número de espécies desaparece. A mais
conhecida delas, embora não tenha sido a maior de todas, atingiu
no final do Cretáceo grande parte da biota marinha, os famosos
dinossauros e muitos outros representantes da fauna terrestre contemporânea.
Mais recentemente, na época pleistocênica, novo espasmo
de extinções eliminou considerável parcela da megafauna
de mamíferos, atingindo pesadamente a fauna pré-histórica
neotropical e, com ela, a brasileira. Hoje, presenciamos mais uma dessas
profundas crises biológicas, agora gerada pelas ações
desastradas de uma única espécie, um primata anômalo
que se auto intitula Homo sapiens.
Conquanto todos concordem que o presente ritmo de extinções
evidencia-se extremamente intenso e que suas causas primordiais são
a explosão demográfica, a rápida ocupação
humana dos continentes e o uso abusivo dos recursos vivos, os cientistas
divergem quanto ao grau de intensidade em que elas acontecem. Se forem
incluídas as perdas definitivas em microrganismo, fungos e invertebrados,
além daquelas relativas às plantas e animais vertebrados
mais conspícuos, as estimativas indicadas na literatura variam
entre 50 a 250 espécies eliminadas a cada dia. Somente nas florestas
tropicais, o renomado biólogo Edward O. Wilson, em livro publicado
no ano 1972, avaliou àquela época estar ocorrendo um ritmo
de extinções da ordem de 27.000 espécies por ano,
ou seja, 74 a cada dia e três por hora. Essas estimativas alarmantes
não demonstram, porém, toda a gravidade do problema. Um
número muitíssimo maior de espécies está com
populações reduzidas e rapidamente decrescentes, vivendo
em hábitats cada vez menores e mais fragmentados, e indicando
evidente agravamento futuro da atual crise de extinções.
A situação brasileira não foge à regra.
País que se destaca pela imensa diversidade biológica que
possui - embora seguramente não haja ainda dados suficientes para
afirmar-se que a ostenta em maior grau no mundo, o Brasil vem presenciando
nas últimas décadas uma acelerada ocupação
do seu território e o empobrecimento significativo de todos os
biomas. Em alguns casos, esse processo de substituição
dos ecossistemas naturais por extensas áreas de monoculturas ou
com pecuária extensiva atinge dimensões de difícil
visualização. De acordo com os dados oficiais publicados,
a Amazônia Legal, que na verdade é um imenso complexo de
ecossistemas díspares, vem sendo desmatada ininterruptamente num
ritmo médio superior a 50 quilômetros quadrados por dia,
durante os últimos 25 anos. Já é amplamente conhecido
que outro bioma com enorme grau de biodiversidade, a Mata Atlântica,
está hoje reduzido a menos de oito por cento de sua extensão
original, e a maior parte do que dele restou são remanescentes
florestais extremamente fragmentados e biologicamente empobrecidos, embora
ainda restem algumas formações razoavelmente extensas nas
regiões onde a topografia acidentada dificultou a ocupação
humana, tal como ocorre nas regiões serranas do Paraná.
Estes dois exemplos de ricos biomas fortemente agredidos levam-nos a
imaginar o número colossal de espécies menos perceptíveis
da flora e da fauna brasileiras que já foram ou estão sendo
eliminadas, muitas delas desconhecidas pela Ciência.
O Paraná se destaca de outros estados brasileiros pela diversidade
de ecossistemas, mas dentre eles as florestas ombrófilas mistas,
as estacionais e os campos já foram largamente degradados ou,
em vastas extensões, completamente eliminados. Testemunhei pessoalmente
esta brutal e célere destruição da natureza entre
os anos 1960-70 por ter na época sobrevoado repetidamente o oeste
do Estado, coberto de início por um extenso e contínuo
tapete verde de florestas virgens. Lembro-me bem de uma termoelétrica
a lenha e uma pequena ferrovia, na região de Guaíra, que
só aceitavam madeira de lei como combustível, devido ao
seu maior poder calorífico; o que então não se usava
como lenha ou para atividades industriais ainda incipientes, era impiedosamente
destruído no campo a fim de ceder lugar à agricultura.
Em face desses desatinos do passado, o Estado enfrenta hoje pesada ameaça
de extinção de grande parte de sua biota.
Uma das medidas adotadas para se estimar os danos das atividades humanas à flora
e à fauna é o levantamento periódico das espécies
consideradas ameaçadas de extinção, empreendimento
hoje comum em muitos países e efetuado, em âmbito global,
pela União Mundial para a Conservação da Natureza
- IUCN. As relações de espécies decorrentes desses
estudos são necessariamente sempre incompletas, uma vez que somente
um conhecimento detalhado e profundo dos ecossistemas, quase impossível
nos ambientes tropicais e subtropicais, permitiria uma visão acurada
da realidade. Não obstante, tais relações, mesmo
imperfeitas, são uma ferramenta importantíssima para o
planejamento e a execução de ações conservacionistas
que em sua ausência seriam quase impraticáveis.
No Brasil, a primeira tentativa nesse sentido ocorreu em um encontro
denominado Reunião Técnica sobre Espécies
da Fauna Brasileira Ameaçada
de Extinção, realizado no Rio de Janeiro, em outubro
de 1971, sob os auspícios do Conselho Nacional de Pesquisas,
do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF (hoje extinto),
do Museu Nacional do Rio de Janeiro, da Fundação Brasileira
para a Conservação da Natureza - FBCN, da Associação
de Defesa da Flora e da Fauna do Estado de São Paulo, do Centro
Espírito-santense de Conservação da Natureza e
do Instituto de Conservação do Estado da Guanabara. Os
resultados desse histórico encontro, embasado nos precários
dados então disponíveis, retrataram com a possível
fidelidade a situação na época dos mamíferos,
aves, répteis, anfíbios e peixes brasileiros, e foram
divulgados em livro editado pela Academia Brasileira de Ciências
em 1972, sob o título Espécies da Fauna Brasileira
Ameaçadas de Extinção. Uma decorrência
importante desse evento memorável foi a publicação
da primeira lista oficial brasileira da fauna ameaçada.
Num
país de dimensões continentais, com ampla diversidade de
condições no que se refere à conservação
de ecossistemas, uma única lista nacional de espécies ameaçadas
evidentemente não satisfaz para avaliação mais criteriosa
do status de nossa flora e fauna. Muito meritória, portanto,
foi a iniciativa de organizarem-se e divulgarem-se listas estaduais,
surgida no Paraná em 1995 e repetida em outros estados, estes
infelizmente ainda em pequeno número. As listas estaduais permitem
caracterizar os problemas existentes regionalmente, viabilizando medidas
de conservação condizentes com situações
locais específicas, que podem diferir muito expressivamente entre
estados distintos. A presente revisão da lista do Paraná é pois
altamente oportuna, em face da rapidez com que as atividades antrópicas
se ampliam no Estado, atingindo alguns dos últimos fragmentos
de ecossistemas com singular importância, a exemplo das florestas
de araucária. Particularmente válido foi o esforço
de inclusão dos peixes e de alguns táxons de invertebrados,
até recentemente omitidos ou abordados com inaceitável
superficialidade nas listas nacionais. Importante é também
ressaltar não se restringir a nova lista paranaense a uma simples
relação de espécies, cujos reflexos na conservação
seriam limitados; muito acertadamente fizeram-na englobar, para cada
espécie, dados relativos aos critérios de inclusão
na lista, áreas de distribuição conhecida, presença
em unidades de conservação, medidas de conservação
aconselháveis e informações gerais sobre o táxon
considerado. Correta também foi a decisão de adotar os
critérios da IUCN para estabelecimento de categorias de ameaça
e justificativas de inclusão, em benefício da uniformidade
do processo de avaliação.
É oportuno
lembrar que, à vista da generalizada eliminação
dos hábitats, as unidades de conservação tendem
a se tornar os últimos refúgios para muitas espécies
e as únicas amostras dos ecossistemas em sua composição
original. Seu valor como amostragem da biodiversidade do planeta é imensurável
e crescerá sempre na medida em que os ambientes naturais desaparecerem.
No entanto, tais áreas geograficamente limitadas tendem a uma
inevitável simplificação biológica ao longo
do tempo, já evidenciada e quantificada em estudos realizados
no exterior, cuja minimização só poderá ser
alcançada com manejo cientificamente controlado, somente viável
com o conhecimento aprofundado das espécies protegidas. Indicar
sua existência nas unidades de conservação é pois
indispensável, não só para permitir o acompanhamento
da dinâmica populacional dentro das unidades, como também
para identificar lacunas e sugerir medidas corretivas.
Contudo,
são também pertinentes algumas palavras de precaução.
As listas de fauna ameaçada, embora absolutamente essenciais para
a adoção de medidas de proteção, também
apresentam um lado negativo. Como me foi possível constatar em
viagens pelo País, elas significam uma facilitação
do trabalho dos traficantes de fauna, permitindo-lhes selecionar espécies
raras e indicando áreas de ocorrência. A divulgação
dos conhecimentos sobre as espécies ameaçadas exige, portanto,
providências simultâneas severas para coibir o comércio
ilícito de fauna.
Os dezenove autores da revisão da lista, bem como os participantes
da reunião de trabalho que para ela contribuíram, podem
orgulhar-se de terem produzido uma obra de suma importância, retratando
os avanços realizados no conhecimento da fauna paranaense e fornecendo
valiosos subsídios para sua adequada conservação.
A Nação fica-lhes devedora de um excelente serviço.
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