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Fauna Ameaçada no Paraná: uma introdução
Sandra Bos Mikich
Renato Silveira Bérnils
Paulo
Aparecido Pizzi
A fauna paranaense apresenta uma riqueza que reflete a diversidade
de biomas e ecossistemas presentes no Estado, incluindo aproximadamente
10.000 espécies de borboletas e mariposas, 450 de abelhas, 950
de peixes, 120 de anfíbios, 160 de répteis, 770 de aves
e 180 de mamíferos. No entanto, uma parcela significativa dessa
riqueza se encontra sob algum grau de ameaça, em função
da destruição e redução dos ecossistemas,
da caça e pesca predatórias, do comércio ilegal
de espécimes, da poluição dos ecossistemas terrestres
e aquáticos, da introdução de espécies exóticas,
da perda de fontes alimentares e do uso indiscriminado de agroquímicos,
entre outros fatores, que colocam em risco não apenas a fauna,
mas deterioram a qualidade de vida do homem, que também depende
de um ambiente saudável e equilibrado.
A perda de espécies animais representa a perda de polinizadores,
dos quais depende boa parte da nossa produção de alimento;
a perda de dispersores de sementes, responsáveis pela recuperação
dos ecossistemas florestais; a perda de controladores biológicos
de pragas, ameaçando a saúde humana e a produção
vegetal e animal; a perda de genes, importantes para o melhoramento genético;
e a perda de um potencial biológico ainda pouquíssimo explorado.
Outrossim, a eliminação de algumas espécies da fauna
pode levar a um processo de extinções em cascata, envolvendo
animais e vegetais a elas relacionadas.
Listas de espécies ameaçadas ou listas vermelhas são
aquelas que apresentam taxa ameaçados de extinção
em uma determinada região com o objetivo de promover sua conservação.
Essas listas são geralmente complementadas com dados de biologia,
ecologia, distribuição e indicação das principais
ações e estratégias necessárias para a conservação
das espécies ameaçadas, constituindo os chamados Livros
Vermelhos, como o ora apresentado.
Além da criação e operacionalização
de unidades de conservação, do aumento da fiscalização
e da educação ambiental, as listas de espécies ameaçadas,
em âmbito global ou regional, estão entre os instrumentos
mais importantes e efetivos para promover a conservação
da natureza.
A União Mundial para a Conservação da Natureza
(IUCN) publicou a primeira lista global de espécies ameaçadas
em 1966. A partir de então, não só as espécies,
mas também os critérios para a definição
de seu status de conservação vêm sendo revisados,
acompanhando o avanço do conhecimento científico e tornando
as avaliações mais objetivas e replicáveis.
A primeira lista da fauna brasileira ameaçada de extinção
foi elaborada em 1973, sendo que a lista atualmente em vigência
foi recentemente publicada (2003). Os principais avanços desta
nova revisão foram a adoção dos critérios
recomendados por IUCN (2001) e a participação de um grande
número de especialistas através de consultas, acessos a
bancos de dados e workshops.
Segundo Machado et al. (1998), publicações sobre
espécies ameaçadas de extinção em nível
estadual são comuns em vários países e importantes
para a proteção do patrimônio natural de cada estado.
Além disso, contribuem para a conservação da biodiversidade
do país, uma vez que, do ponto de vista genético, as populações
de uma mesma espécie não são iguais em regiões
diferentes.
Assim, o primeiro estado brasileiro a publicar uma lista regional de
espécies ameaçadas foi o Paraná, que o fez em 17
de fevereiro de 1995. No mesmo ano foi publicada a lista de Minas Gerais,
em 1998 foi a vez de São Paulo e Rio de Janeiro, e em 2002 foi
publicada a do Rio Grande do Sul. Portanto, até o momento, apenas
as regiões Sul e Sudeste tiveram listas estaduais de animais ameaçados.
Agora o Paraná novamente desponta como pioneiro, realizando a
revisão da sua lista de 1995, através de contrato celebrado
no dia 28 de novembro de 2002 entre o IAP/SEMA e o Mater Natura – Instituto
de Estudos Ambientais, organização não governamental
paranaense que venceu a licitação/convite de nº 61/2002.
Cabe salientar que a lista publicada em 1995, embora já desatualizada,
foi um passo muito importante na conservação da fauna paranaense.
No entanto, não só o conhecimento a respeito da fauna desse
Estado era bastante restrito, mas também o número de especialistas
nos poucos grupos taxonômicos (mamíferos, aves, répteis
e borboletas) nela abordados. Além disso, o uso da internet era
limitado naquela época, dificultando a troca de informações
entre pesquisadores. Assim, aquela obra reflete basicamente o conhecimento
que uns poucos consultores, muitos deles autores de capítulos
da presente revisão, detinham na ocasião.
Revisões periódicas das listas de espécies ameaçadas,
como a que está sendo apresentada para o Estado do Paraná,
são importantes não apenas para rever o status das
espécies com base em novos conhecimentos e novas situações,
mas também para atualizá-las frente às alterações
dos critérios definidos pela IUCN. Estes foram, portanto, os objetivos
do presente estudo, que apresenta as seguintes inovações:
1. Ampliação dos grupos taxonômicos
abordados.
Além de mamíferos, aves, répteis e borboletas, taxa incluídos
na versão paranaense anterior (1995), foram agora também
contemplados anfíbios, peixes e abelhas. Pesquisadores que atuam
com outros grupos de insetos e com os demais invertebrados foram convidados
a participar do projeto, mas a falta de tradição de trabalhos
(ou de especialistas) envolvendo esses grupos na área de conservação
e a carência de informações para a maioria dos taxa dificultaram
a sua participação.
2. Formação de equipes de coordenação
e grupos de trabalho para cada grupo taxonômico. Além
de um coordenador geral e um coordenador adjunto, cada grupo taxonômico
foi liderado por um pesquisador, que constituiu uma pequena equipe de
trabalho. Desta forma, reuniu-se a maioria dos especialistas do Estado,
nos grupos abordados, muitos deles com larga experiência em trabalhos
de conservação, atestada por participações
na elaboração de outras listas de espécies ameaçadas,
inclusive na recente revisão da lista nacional. Além disso,
ampliou-se também o número de instituições
participantes, garantindo maior legitimidade ao processo.
3. Ampla consulta à comunidade científica.
Esta consulta foi efetuada através de duas estratégias principais:
realização de um workshop e solicitação
de informações através de formulários específicos,
encaminhados via Internet pelos coordenadores de cada grupo taxonômico.
4. Adoção integral dos critérios da IUCN,
bem como de sua adaptação regional. Após
leitura e análise de diferentes listas e propostas de categorias
e critérios, a equipe de coordenação, em reunião
realizada no dia 7 de janeiro de 2003, seguindo as recomendações
formuladas durante o workshop realizado em Belo Horizonte
em dezembro de 2002, para a revisão da lista nacional da fauna
ameaçada, deliberou pela adoção integral das categorias
e critérios da IUCN (versão 3.1 de 2001), bem como da
adaptação regional dessas categorias e critérios
conforme proposto por Gärdenfors et al. (2001). A adoção
dos critérios da IUCN também para o âmbito paranaense,
objetivou primordialmente a comparação futura entre os stati das
espécies nos diversos estados da União.
5. Tratamento especial às espécies quase ameaçadas
(NT) e com dados insuficientes (DD). Além das espécies
enquadradas nas categorias de ameaça propostas pela IUCN, aquelas
que não se encontram hoje ameaçadas, mas que, caso nada
seja feito em prol da sua conservação, em um futuro próximo
poderão estar nessa situação (=NT), também
foram incluídas nesta publicação. Esta é uma
forma de alertar para a necessidade urgente de se conter esse processo.
Da mesma forma foram contempladas as muitas espécies para as quais
os dados hoje disponíveis não permitiram definir o seu status (=DD).
Acredita-se que muitas delas possam estar ameaçadas, mas são
necessárias mais informações a seu respeito e sua
inclusão nesta obra visa justamente estimular as pesquisas necessárias
para que, em uma próxima revisão da presente lista, estas
espécies possam ser devidamente avaliadas.
Cabe aqui salientar que não fosse o empenho de todos os pesquisadores
- autores ou colaboradores - envolvidos no trabalho, que buscaram informações
nas mais variadas fontes, cederam dados inéditos e colaboraram
ativamente nas discussões, muitas das espécies tratadas
na presente obra como ameaçadas teriam de ser consideradas DD,
limitando consideravelmente a sua proteção. O grande número
de espécies nessa categoria (foram listadas 138 espécies
com dados deficientes) é reflexo da carência de pesquisas
no Estado e da morosidade no processo de divulgação dos
seus resultados.
De qualquer forma, em um espaço de tempo relativamente curto,
logrou-se a compilação de uma quantidade extraordinária
de informações publicadas e inéditas, a avaliação
da situação de cada uma das espécies de mamíferos,
aves, répteis, anfíbios, peixes, abelhas e borboletas hoje
conhecidas no Estado do Paraná, para o qual passam a ser reconhecidas,
por lei estadual, quatro espécies regionalmente extintas (RE),
41 criticamente em perigo (CR), 47 em perigo (EN) e 71 vulneráveis,
totalizando 163 espécies ameaçadas. Além
dessas, são tratadas na presente obra, 43 espécies NT e
138 DD que, embora não recebem proteção legal especial,
merecem a pronta atenção de pesquisadores, legisladores
e público em geral.
Destaca-se que as 163 espécies ora consideradas ameaçadas no
Estado não devem ser diretamente comparadas às 133 espécies
apresentadas na lista publicada em 1995, pois a atual, além de incluir
novos grupos taxonômicos (abelhas, peixes e anfíbios), trabalhou
com outras categorias e critérios muito mais restritivos e objetivos
do que os utilizados anteriormente. Este assunto é tratado com mais
detalhes no capítulo Situação da Fauna no Paraná:
uma síntese.
No entanto, os autores reconhecem o agravamento na situação
da conservação dos ecossistemas e espécies paranaenses
e entendem que a produção desta obra representa um marco
para a conservação no Estado e no País. Entendem
também que ela não tem fim em si mesma e esperam que o
seu correto uso resulte no seu constante aprimoramento, já que
listas e livros vermelhos traduzem um anseio da comunidade científica,
uma demanda das autoridades e cidadãos que se preocupam com a
manutenção da diversidade biológica e devem estimular
e subsidiar futuros estudos, indicar ações e áreas
prioritárias para a conservação, bem como auxiliar
na obtenção de recursos para a implantação
de programas de pesquisa e conservação de espécies
e hábitats ameaçados, imprescindíveis para reverter
o panorama atual da fauna no Estado do Paraná.
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