Tenha paciência, afinal são 344 espécies
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Fauna Ameaçada no Paraná: uma introdução

Sandra Bos Mikich
Renato Silveira Bérnils
Paulo Aparecido Pizzi

A fauna paranaense apresenta uma riqueza que reflete a diversidade de biomas e ecossistemas presentes no Estado, incluindo aproximadamente 10.000 espécies de borboletas e mariposas, 450 de abelhas, 950 de peixes, 120 de anfíbios, 160 de répteis, 770 de aves e 180 de mamíferos. No entanto, uma parcela significativa dessa riqueza se encontra sob algum grau de ameaça, em função da destruição e redução dos ecossistemas, da caça e pesca predatórias, do comércio ilegal de espécimes, da poluição dos ecossistemas terrestres e aquáticos, da introdução de espécies exóticas, da perda de fontes alimentares e do uso indiscriminado de agroquímicos, entre outros fatores, que colocam em risco não apenas a fauna, mas deterioram a qualidade de vida do homem, que também depende de um ambiente saudável e equilibrado.

A perda de espécies animais representa a perda de polinizadores, dos quais depende boa parte da nossa produção de alimento; a perda de dispersores de sementes, responsáveis pela recuperação dos ecossistemas florestais; a perda de controladores biológicos de pragas, ameaçando a saúde humana e a produção vegetal e animal; a perda de genes, importantes para o melhoramento genético; e a perda de um potencial biológico ainda pouquíssimo explorado. Outrossim, a eliminação de algumas espécies da fauna pode levar a um processo de extinções em cascata, envolvendo animais e vegetais a elas relacionadas.

Listas de espécies ameaçadas ou listas vermelhas são aquelas que apresentam taxa ameaçados de extinção em uma determinada região com o objetivo de promover sua conservação. Essas listas são geralmente complementadas com dados de biologia, ecologia, distribuição e indicação das principais ações e estratégias necessárias para a conservação das espécies ameaçadas, constituindo os chamados Livros Vermelhos, como o ora apresentado.

Além da criação e operacionalização de unidades de conservação, do aumento da fiscalização e da educação ambiental, as listas de espécies ameaçadas, em âmbito global ou regional, estão entre os instrumentos mais importantes e efetivos para promover a conservação da natureza.

A União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN) publicou a primeira lista global de espécies ameaçadas em 1966. A partir de então, não só as espécies, mas também os critérios para a definição de seu status de conservação vêm sendo revisados, acompanhando o avanço do conhecimento científico e tornando as avaliações mais objetivas e replicáveis.

A primeira lista da fauna brasileira ameaçada de extinção foi elaborada em 1973, sendo que a lista atualmente em vigência foi recentemente publicada (2003). Os principais avanços desta nova revisão foram a adoção dos critérios recomendados por IUCN (2001) e a participação de um grande número de especialistas através de consultas, acessos a bancos de dados e workshops.

Segundo Machado et al. (1998), publicações sobre espécies ameaçadas de extinção em nível estadual são comuns em vários países e importantes para a proteção do patrimônio natural de cada estado. Além disso, contribuem para a conservação da biodiversidade do país, uma vez que, do ponto de vista genético, as populações de uma mesma espécie não são iguais em regiões diferentes.

Assim, o primeiro estado brasileiro a publicar uma lista regional de espécies ameaçadas foi o Paraná, que o fez em 17 de fevereiro de 1995. No mesmo ano foi publicada a lista de Minas Gerais, em 1998 foi a vez de São Paulo e Rio de Janeiro, e em 2002 foi publicada a do Rio Grande do Sul. Portanto, até o momento, apenas as regiões Sul e Sudeste tiveram listas estaduais de animais ameaçados.

Agora o Paraná novamente desponta como pioneiro, realizando a revisão da sua lista de 1995, através de contrato celebrado no dia 28 de novembro de 2002 entre o IAP/SEMA e o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, organização não governamental paranaense que venceu a licitação/convite de nº 61/2002.

Cabe salientar que a lista publicada em 1995, embora já desatualizada, foi um passo muito importante na conservação da fauna paranaense. No entanto, não só o conhecimento a respeito da fauna desse Estado era bastante restrito, mas também o número de especialistas nos poucos grupos taxonômicos (mamíferos, aves, répteis e borboletas) nela abordados. Além disso, o uso da internet era limitado naquela época, dificultando a troca de informações entre pesquisadores. Assim, aquela obra reflete basicamente o conhecimento que uns poucos consultores, muitos deles autores de capítulos da presente revisão, detinham na ocasião.

Revisões periódicas das listas de espécies ameaçadas, como a que está sendo apresentada para o Estado do Paraná, são importantes não apenas para rever o status das espécies com base em novos conhecimentos e novas situações, mas também para atualizá-las frente às alterações dos critérios definidos pela IUCN. Estes foram, portanto, os objetivos do presente estudo, que apresenta as seguintes inovações:

1. Ampliação dos grupos taxonômicos abordados. Além de mamíferos, aves, répteis e borboletas, taxa incluídos na versão paranaense anterior (1995), foram agora também contemplados anfíbios, peixes e abelhas. Pesquisadores que atuam com outros grupos de insetos e com os demais invertebrados foram convidados a participar do projeto, mas a falta de tradição de trabalhos (ou de especialistas) envolvendo esses grupos na área de conservação e a carência de informações para a maioria dos taxa dificultaram a sua participação.

2. Formação de equipes de coordenação e grupos de trabalho para cada grupo taxonômico. Além de um coordenador geral e um coordenador adjunto, cada grupo taxonômico foi liderado por um pesquisador, que constituiu uma pequena equipe de trabalho. Desta forma, reuniu-se a maioria dos especialistas do Estado, nos grupos abordados, muitos deles com larga experiência em trabalhos de conservação, atestada por participações na elaboração de outras listas de espécies ameaçadas, inclusive na recente revisão da lista nacional. Além disso, ampliou-se também o número de instituições participantes, garantindo maior legitimidade ao processo.

3. Ampla consulta à comunidade científica. Esta consulta foi efetuada através de duas estratégias principais: realização de um workshop e solicitação de informações através de formulários específicos, encaminhados via Internet pelos coordenadores de cada grupo taxonômico.

4. Adoção integral dos critérios da IUCN, bem como de sua adaptação regional. Após leitura e análise de diferentes listas e propostas de categorias e critérios, a equipe de coordenação, em reunião realizada no dia 7 de janeiro de 2003, seguindo as recomendações formuladas durante o workshop realizado em Belo Horizonte em dezembro de 2002, para a revisão da lista nacional da fauna ameaçada, deliberou pela adoção integral das categorias e critérios da IUCN (versão 3.1 de 2001), bem como da adaptação regional dessas categorias e critérios conforme proposto por Gärdenfors et al. (2001). A adoção dos critérios da IUCN também para o âmbito paranaense, objetivou primordialmente a comparação futura entre os stati das espécies nos diversos estados da União.

5. Tratamento especial às espécies quase ameaçadas (NT) e com dados insuficientes (DD). Além das espécies enquadradas nas categorias de ameaça propostas pela IUCN, aquelas que não se encontram hoje ameaçadas, mas que, caso nada seja feito em prol da sua conservação, em um futuro próximo poderão estar nessa situação (=NT), também foram incluídas nesta publicação. Esta é uma forma de alertar para a necessidade urgente de se conter esse processo. Da mesma forma foram contempladas as muitas espécies para as quais os dados hoje disponíveis não permitiram definir o seu status (=DD). Acredita-se que muitas delas possam estar ameaçadas, mas são necessárias mais informações a seu respeito e sua inclusão nesta obra visa justamente estimular as pesquisas necessárias para que, em uma próxima revisão da presente lista, estas espécies possam ser devidamente avaliadas.

Cabe aqui salientar que não fosse o empenho de todos os pesquisadores - autores ou colaboradores - envolvidos no trabalho, que buscaram informações nas mais variadas fontes, cederam dados inéditos e colaboraram ativamente nas discussões, muitas das espécies tratadas na presente obra como ameaçadas teriam de ser consideradas DD, limitando consideravelmente a sua proteção. O grande número de espécies nessa categoria (foram listadas 138 espécies com dados deficientes) é reflexo da carência de pesquisas no Estado e da morosidade no processo de divulgação dos seus resultados.

De qualquer forma, em um espaço de tempo relativamente curto, logrou-se a compilação de uma quantidade extraordinária de informações publicadas e inéditas, a avaliação da situação de cada uma das espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, abelhas e borboletas hoje conhecidas no Estado do Paraná, para o qual passam a ser reconhecidas, por lei estadual, quatro espécies regionalmente extintas (RE), 41 criticamente em perigo (CR), 47 em perigo (EN) e 71 vulneráveis, totalizando 163 espécies ameaçadas. Além dessas, são tratadas na presente obra, 43 espécies NT e 138 DD que, embora não recebem proteção legal especial, merecem a pronta atenção de pesquisadores, legisladores e público em geral.

Destaca-se que as 163 espécies ora consideradas ameaçadas no Estado não devem ser diretamente comparadas às 133 espécies apresentadas na lista publicada em 1995, pois a atual, além de incluir novos grupos taxonômicos (abelhas, peixes e anfíbios), trabalhou com outras categorias e critérios muito mais restritivos e objetivos do que os utilizados anteriormente. Este assunto é tratado com mais detalhes no capítulo Situação da Fauna no Paraná: uma síntese.

No entanto, os autores reconhecem o agravamento na situação da conservação dos ecossistemas e espécies paranaenses e entendem que a produção desta obra representa um marco para a conservação no Estado e no País. Entendem também que ela não tem fim em si mesma e esperam que o seu correto uso resulte no seu constante aprimoramento, já que listas e livros vermelhos traduzem um anseio da comunidade científica, uma demanda das autoridades e cidadãos que se preocupam com a manutenção da diversidade biológica e devem estimular e subsidiar futuros estudos, indicar ações e áreas prioritárias para a conservação, bem como auxiliar na obtenção de recursos para a implantação de programas de pesquisa e conservação de espécies e hábitats ameaçados, imprescindíveis para reverter o panorama atual da fauna no Estado do Paraná.